domingo, agosto 17, 2008

Tempus fugit

Faz pouco tempo que comecei a sentir o tempo passar. Não sei se é cedo pra isso, mas agora, aos 23 anos, noto que estou envelhecendo. Longe de ser uma síndrome de Peter Pan (favor não insinuar nenhuma relação com o Michael Jackson), acho bem-vinda essa fase. Adulto.

Antes eu percebia apenas a queda de cabelo. Hoje vejo que tem outros sinais muito mais subjetivos, como a falta de deslumbramento com as coisas que me pareciam sensacionais tempos atrás. Falando assim parece que sou blasé ou vivido demais; nenhum dos dois. Apenas não me impressiono tanto. Complicadíssimo falar isso sem soar pedante. Ao menos descobri que não sou o único a pensar assim.

Ainda ontem encontrei meu grande companheiro de faculdade. Éramos Lennon/McCartney, hoje cada um em carreira solo e, ainda bem, nenhum dois foi baleado por um louco na frente do Dakota ou qualquer outro lugar. Assim como eu, ele também envelheceu.

When I’m sixty four

Entre um gole de uísque e outro, fomos lá passando nossas vidas, com a intimidade e cumplicidade que só dois velhos amigos poderiam ter e sem vergonha de usar esse clichê. Não temos mais aquela ânsia de fazer tudo, estar em todo lugar. Estamos sossegados com o que temos e com o que somos.

O nosso tipo de conversa hoje é diferente, embora os assuntos sejam praticamente os mesmos: comentários sobre Monty Python, de como O Poderoso Chefão nos fez mais homens, sobre como a adaptação de O Processo, de Kafka, feita pelo Orson Welles é sensacional etc.

De diferente, só mesmo o papo sobre as nossas respectivas, algo inédito entre nós; tá aí uma coisa nova que nos deslumbra. E claro que vieram os inevitáveis comentários sobre TPM das namoradas. Muita coisa mudou.

Estamos envelhecendo. Já era tempo.

Cauby e eu

Tem quem ache mal-gosto ou esquisitice o fato de eu adorar freqüentar eventos ruins. Não sei bem o motivo dessa minha inclinação por programas que são normalmente descartados pelas pessoas de bom senso. Como quase todo desvio de comportamento, isso deve ter raiz num trauma de infância não resolvido. Ao menos assim posso ter uma justificativa mais ou menos plausível e me isentar de qualquer responsabilidade. Sofri abuso, aos 11 anos de idade. Os molestadores: minha mãe e Cauby Peixoto.

Sim, a palavra abuso é apenas para causar dramaticidade. Mamãe não é nenhuma pervertida. Sobre o Cauby, me falta autoridade pra dizer qualquer coisa, mas obviamente não boto a mão fogo por ele nem por ninguém. Ah, também nunca fui molestado por qualquer pessoa, fique claro.

De qualquer maneira, o primeiro evento genuinamente ruim que presenciei na vida foi um show do Cauby Peixoto, uns 12 anos atrás, época já bem distante dos dias de glória dele. Fui na marra, dizia que não queria ver “aquela bicha velha que canta Conceição”. Mas minha mãe insistiu e me arrastou até lá, garantindo que eu iria gostar do show. Talvez por algum tipo intuição materna ela desconfiasse que no futuro eu seria um grande apreciador destes espetáculos de duvidosa qualidade.

Tendo esse histórico, é claro que eu não poderia perder a apresentação do Village People mês passado, cerca de três décadas depois de eles terem sido sucesso com dois únicos hits.
Impossível que possa ser bom algo envolvendo cantores-dançarinos de meia-idade tentando parecer sensuais vestindo roupas supostamente fetichistas. Por teimosia ou desconhecimento, algumas pessoas achavam que poderia ser uma boa balada e acabaram ficando frustradas após os shows do grupo no País. Eu, pelo contrário, fiquei mais do que satisfeito.

Estou convencido de que o Village People mostrou uma das piores apresentações que verei em
toda minha vida. Será muito difícil ver novamente aquela combinação única de pessoas esquisitas, música de péssima qualidade acompanhada de coreografia desconexa e falta de empolgação do público. Não tenho capacidade para imaginar algo mais constrangedor. Definiria o show como uma versão disco de fim de Baile dos Artistas reduzida a um universo de seis senhores no auge de sua decadência. Definitivamente ruim e, por isso mesmo, maravilhoso.

Embora de vertentes bem distintas, Cauby e Village têm em comum esse inegável ar de decadência, algo deprimente que me atrai. Mas não saberia explicar exatamente o que me faz
sair de casa e ir para festas meia-boca. Simplesmente me parece uma opção razoável e honesta de diversão. Mas não me limito a experiências musicais improváveis, o meu negócio é experimentar de tudo quanto for insólito e irrelevante.

Talvez tosco seja a palavra mais apropriada para definir alguns eventos, como um seminário holístico que participei certa vez. A reunião foi realizada por um grupo chamado Fraternidade Raio de Luz, que se definia como “uma fraternidade espiritual da Terra ligada aos seres divinos cósmicos confederativos (sic)”. Só pelos organizadores já parece irresistível, não? Difícil ficar indiferente. Tanto que saí de Boa Viagem, no Recife, e peguei dois ônibus numa manhã de domingo para chegar no local do encontro, no Centro de Igarassu. Não tinha nada melhor pra fazer naquele dia mesmo.

O seminário durou umas seis horas e propiciou momentos inesquecíveis: ouvi histórias sobre criaturas subterrâneas, anjos infiltrados entre homens e alienígenas querendo dominar o planeta. E ainda fui apresentado ao fundador do grupo, um cara que dizia ter adquirido poderes extra-sensoriais após receber instruções de seres extraterrestres. É o tipo de pessoa que eu jamais conheceria em qualquer outra ocasião. Portanto, os eventos ruins cumprem também um importante papel de socialização. Ponto positivo pra mim.

O grande problema destes eventos, e talvez seja o único, é que poucas vezes encontro alguém disposto a ir comigo. Nem os melhores amigos ou minha namorada costumam topar. Não quero tornar isso um prazer solitário, gosto de poder compartilhar com mais gente. Às vezes tenho de insistir muito para convencer, mas nunca desisto. Por falta de argumento, continuo usando chavão “vamos, vai ser divertido, prometo”. Eles dificilmente se divertem como eu. Aposto que o Cauby iria gostar de sair comigo. Da próxima vez vou chamá-lo, até mesmo como retribuição pelo show que ele me proporcionou. E vou convidar Conceição também, lógico.

sexta-feira, maio 02, 2008

Cartas nunca entregues

O que fazer com uma carta que não vai ser entregue ao seu destinatário? Reparei nas correspondências escritas por mim e nunca enviadas. São poucas, nada absurdo, mas a simples existência delas me causa desconforto. Pedidos de desculpas, queixas, declarações apaixonadas, comentários cretinos ou dramas, todos intencionalmente extraviados.

Escrever as cartas traz alívio, sem dúvida. Mas a eficácia desse extravasamento fica comprometida quando os recados não chegam ao seu destino. Não adianta de muita coisa dizer algo que não será ouvido. Ou lido, no caso.

Hoje, revendo algumas das cartas, fico na dúvida se foi realmente melhor nunca entregá-las. Como consolo, tenho plena convicção de que outras realmente tiveram melhor destino ficando por aqui mesmo.

Estranhas lembranças estas cartas. E olha que tem coisa recente, mas parece pertencer a passado longínquo. Ou talvez eu apenas queira fazer com que pareçam coisas ultrapassadas.

Bem, como sei que não produzi nada tão interessante quanto Carta ao Pai, de Franz Kafka, decidi me livrar destes papéis. Quer dizer, deixei duas guardadas. Quem sabe ainda dá tempo e, mais importante, ainda vale a pena?

quarta-feira, abril 23, 2008

Bom demais.

Tenho a sensação de que ando meio retardado, porque tenho considerado tudo excessivamente positivo. Sempre achei que pessoas sorridentes demais e satisfeitas demais tinha problemas mentais. Não é normal.

Quando me perguntam se estou bem, respondo que está tudo ótimo. Sinceramente, não me recordo da última vez em que defini meu estado como ótimo. Talvez eu tivesse uns oito anos de idade e estivesse na frente da televisão vendo Tartarugas Ninja e comendo geléia de mocotó Imbasa.

Habitualmente, achava que sempre tinha algo de errado quando as coisas estavam aparentemente muito certas. Hoje, nem desconfio mais; tenho a convicção de que está tudo muito certo, até quando faço a coisa errada.

Aí me perguntam por que está “tudo ótimo”. Pareço ainda mais retardado, porque não tenho idéia clara do que há de tão bom assim. Apenas tenho achado a vida bem divertida e carrego um sorriso meio débil.

Mas se fosse permitido pedir algo mais nesse “nada demais” que tanto me satisfaz ultimamente, pediria uns probleminhas ou pequenas desgraças. Assim, de leve. Porque ser alguém alto-astral é meio chato. Um pouco de depreciação, para tornar tudo mais interessante.

sábado, abril 19, 2008

Voltando

Sempre achei que para ter um blogue eu teria de escrever coisas que tivessem um mínimo de relevância para quem ocasionalmente aparecesse por aqui. A função não é compartilhar minha vida pessoal; se o quisesse, escreveria tal qual um diário. E bem sem que minha vida pouco ou nada despertaria atenção de um provável leitor.

O que eu tento aqui é escrever qualquer coisa com um mínimo de significado pra você, seja um conhecido meu ou não. Causar, ao menos, um leve prazer com a leitura. Arrancar alguma lembrança, despertar afinidade ou, quem sabe, um sorriso (este último, minha reação favorita). Mas qualquer reação vale, até mesmo apatia.

Aos bem-aventurados que continuaram me visitando durante esse enorme hiato, obrigado, de verdade. Estou de volta.

segunda-feira, março 17, 2008

Desprazeres

Tão logo acordo e abro os olhos, vejo um gringo de quase 1,90m só de cueca. E, Deus, ele está com ereção matinal. Não merecia ver isso, por todos os meus pecados.

Fico a me perguntar por que a maioria dos alberguistas simplesmente não se troca no banheiro. Ao menos, acho que o cara podia esperar debaixo do lençol até sua ereção matinal passar. O mais pertubador é que ele vai até a varanda e fica olhando a rua. Sem acrescentar nenhuma peça de roupa. Apenas acende um cigarro, mas a fumaça não é suficiente para esconder a desagradável visão.

Aposto que se um algum dia eu me hospedar num albergue misto eu não verei mulheres em trajes sumários desfilando na minha frente.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Toma um cóccix!

Não aceito que cóccix seja nome de uma parte de nosso corpo. Sim, aquele ossinho no final da coluna vertebral, também conhecido pelos populares como mucumbu (aí, sim, nome apropriado).
Cóccix é palavra esquisita demais. Pra mim, deveria ser nome de remédio. Antiinflamatório. Daqueles para dor braba, em casos extremos, quando o dorflex não resolve de jeito nenhum. Eu confiaria num remédio com esse nome. Parece moderno e eficiente.

Consigo imaginar perfeitamente a situação:
- Mulher, pra tu ter idéia, a dor só passou depois que eu tomei um cóccix.
- Afe, devia tá doendo muito mesmo. Só tomo cóccix quando não estou agüentando mesmo.

Não é crível?

Cóccix seria remédio receitado. E bastante caro, não é para qualquer um.
- Ih, tô com uma dor danada! Me dá um cóccix, por favor!?
- Nunca, só tenho unzinho, nunca se sabe quando vou precisar de verdade dele.

Ninguém dá o cóccix de graça.

*Aliás, alguém sabe como é o plural de cóccix? Tudo bem que provavelmente ninguém na vida precisou se referir a mais de um, como: “ai meu Deus, olha só que coisa mais lindas esses cóccixes(?)”. Afinal, a única oportunidade de tecer um comentário desse seria numa orgia ou coisa assim e não imagino pessoas preocupadas em falar do cóccix alheio numa hora dessas. Enfim, se alguém souber, fico grato.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Aos senhores passageiros

Não raro se escuta alguém dizer “nossa, viajei em fulano(a)”. Coisa comum, com a escassez de pessoas interessantes, você encontra alguém um pouquinho diferente e já viaja nela. Aí mora o perigo.

Pegue seu passaporte de relacionamentos e repare em quantas dessas viagens você já embarcou. Até pessoas menos viajadas têm uma boa quantidade de páginas carimbadas. A maioria de nós é nômade no campo afetivo, poucos são os que conseguem se fixar num lugar. Afinal, parece excitante a idéia de conhecer culturas novas, costumes diferentes, entrar em contato com novas línguas e coisas assim.

Mas pense. Quantas dessas maravilhosas viagens que prometiam um roteiro empolgante e exótico não se revelaram excursões mixurucas ou, pior, eram grandes roubadas? Daquelas que você encara um serviço de bordo ruim ou tem a bagagem extraviada.

Ainda assim, continuamos viajando, sempre com a mala em mãos.

Alguns destinos não valem nem a taxa de embarque. Desconfie daquelas promoções imperdíveis que aparecem nos finais de semana. Antes de viajar em alguém, procure referências de quem já conhece o local ou se informe com um agente de viagens experiente. Discuta bem o trajeto com o piloto Coração e com a comissária de bordo Razão.

Toda atenção no check-in e, aos que se aventurarem, boa viagem.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Que tem de bom no dia?

Acordar bem-humorado é uma anormalidade. Mesmo não achando lá muita graça em dormir, não entendo como alguém consegue sorrir após levantar da cama. Estou ficando rabugento já aos 23 anos. E, olhando direitinho no espelho agora de manhã, pareço não ter apenas 23. Tento amenizar as coisas dando um sorriso pro amigo de vidro, mas e vejo essas marcas ao redor dos olhos. Tchau sorriso. E, além do mais, estou ficando careca.

Ainda tenho a cara e os sinais da quarta-feira de cinzas: garganta inflamada, dor de cabeça e gastrite. Chá de paracetamol com mel, um buscopan e pastilha, fora os sucrilhos e torradinhas. Das mazelas, pelo menos a fome matinal passa.

Menos irritado, dou uma olhada no jornal. “Chineses rezam por proteção no Ano do Rato”. É, rezem bastante, porque um ano do RATO não pode ser coisa boa. Aliás, com os animais do zodíaco chinês fica mesmo complicado. Até anteontem era ano do porco e logo me vem a imagem do Babe, o porquinho atrapalhado. Calafrios ao lembrar da voz demoníaca daquele suíno. É, talvez o ano do rato seja menos mal.

Bem, vou escovar os dentes. Que eu fique enrugado, careca e rabugento. Mas banguela é uma barra. Nunca que vou dormir com uma dentadura boiando num copo de água na cabeceira.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Seu Abílio

Seu Abílio era um homem desses que não se vê mais hoje em dia, um tipo tão raro nos anos 2000 quanto seu nome. Morreu não sei nem mais quanto tempo faz; mais de dez anos, menos de 15, creio. Eu era bem novo quando isso aconteceu e esqueci da data de sua partida, mais por não querer lembrar disso do que por displicência infantil.

O que lembro e sei é que gostava muito dele. Já o conheci velho, claro, como há de ser com todo avô. Era magro e alto, já ficando encurvado pela idade. Tinha cabelos brancos bem finos, que usava de lado. Usava uma capa preta e fumava bastante. Inesquecível aquela figura alta de sobretudo preto com o cigarro acesso naquela escuridão de cidade do interior.

Era barbeiro, mas sua barba parecia sempre estar por fazer. O beijo do avô sempre me arranhava a face, coisa que eu não gostava muito. Mas eu logo esquecia daquele ardor chato no rosto quando ele me contava uma piada. Tinha sempre uma na ponta da língua, coisa incrível, nunca se repetia.

Aliás, Abílio morreu contando uma piada que agora me esqueci. Era uma daquelas clássicas sobre a chegada de alguém no céu. E me deu uma saudade dele agora de noite, enquanto brinco com sua antiga bengala.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Pra não esquecer

Pelo menos uma vez por semana encontro a vizinha do andar de baixo no térreo do prédio. “Nunca mais lhe vi”, me diz a senhorinha, sempre, mesmo que tenha me visto no dia anterior. Ela tem Alzheimer.

Às vezes ela pergunta do trabalho no jornal (que não tenho mais) e de algumas outras coisas as quais também não mais tenho. Uma vez expliquei superficialmente que o tudo sobre o qual ela perguntava tinha virado nada. Tempos difíceis.

Mas não adianta, ela não lembra das minhas observações e volta a me perguntar. E a dizer que nunca mais me viu. Entro no clima e digo “é verdade, tenho trabalhado muito, por isso quase não nos vemos” ou “sim, está tudo bem”.

Causava certo desconforto esses diálogos. Mas pensando bem agora, ela tem memória das melhores coisas que eu vivia até há pouco. Qual a razão de tentar explicar o hoje que anda tão insosso?Era bom. Melhor deixar ela com essas lembranças sobre mim, muito mais interessantes.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Folia maldita

Pessoa atípica (e antipática também) que sou, nunca gostei de carnaval, cerveja e futebol, grandes preferências nacionais. Não sei bem se realmente sou pouco afeito a essas coisas ou se o abuso surgiu de uma tentativa de querer ser alguém diferente; se simula tanta coisa no decorrer do tempo que às vezes torna-se difícil saber o que é ou não da nossa natureza.

Mas acho que não gosto mesmo do carnaval, embora nos últimos anos venha empreendendo esforços para ser mais sociável no período. É difícil.

Socializar-se no carnaval não significa apenas sair de casa, inclui atitudes como:

- achar divertido aquele roça-roça em ladeiras lotadas, num sol escaldante.
- esboçar sorrisos para as pessoas.
- não me chatear com o cara que inevitavelmente vai derramar cerveja em mim.
- desviar das periguetes que se jogam.
- relevar o fedor de urina nas ruas.
- não linchar o guri que joga água suja e gelada na minha cabeça.
- escutar Vassourinhas a cada esquina.
- aturar as apalpadas e cutucões (sobretudo as praticadas por seres do gênero masculino).
- suportar os saradões descamisados (e, quase sempre, suados).
- etc.

Carnaval é mais uma prova da capacidade do humano superar as adversidades, mais especificamente, sua capacidade de se divertir com elas. Continua não me parecendo um momento propício para a diversão. Vai entender.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Recesso

O autor encontra-se de férias no balneário de Angra dos Reis, como todo emergente de novela das oito.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Tempo, tempo.

É batata. Chega dezembro e começo a escutar pessoas falando que o ano foi péssimo, dos piores vividos por eles. Quase sempre, a queixa é seguida de um “espero que o próximo ano seja melhor”. Tenho a impressão de que todos os anos têm sido horríveis e estão piorando gradativamente. Quase ninguém diz que o ano foi maravilhoso ou divertido. Ainda assim, acreditam em dias melhores.

Mas não é a virada da folhinha que vai mudar a vida de ninguém. Não vai melhorar.

Há quem diga que sou amargo e pessimista, que falo coisas assim por ressentimento. Sim, posso ser tudo isso, mas não é razão para descrença num futuro próspero. Nem muito menos recorrerei ao chavão “sou realista”. Nada disso.

Não estamos acostumados a lidar com o que nos desagrada. Passam-se os anos e nossas pequenas tragédias diárias, dramas e aflições aumentam em número e intensidade. E mesmo com essa eterna repetição de mazelas, gente continua torcendo para que as coisas melhorem. É irreal.

Supostamente, tenho mil motivos para reclamar de 2007. Nunca vivi em tão pouco tempo essa combinação de perdas, desentendimentos, tristezas e frustrações que experimentei recentemente, sobretudo no último semestre. Tive momentos bem ruins, devo ter chorado o suficiente para encher uma cisterna.

Isso é a vida. Feia e instável. Com o tempo e um jeitinho, você começa a gosta dela. Não adianta reclamar, ela não muda. É como aquelas pessoas que não tomam jeito, por mais que reclamemos de seus defeitos. Alguém tem de ceder. Eu cedi. E estamos muito bem, obrigado. Reparo bem mais nas coisas boas acontecendo ao redor.

Próximo ano vai ser pior. Mas isso não quer dizer que será ruim.

Para quem acredita em calendário, feliz ano-novo. Até 2008.

sábado, dezembro 22, 2007

Mensagem recebida

Já há um bocado de tempo as companhias de telefonia móvel lideram o ranking de reclamações do Procon. Serviços ruins, cobranças indevidas e demora na resolução de problemas são as principais queixas. É tudo verdade, mas o pior mesmo são as mensagens de propaganda que chegam direto.

Por mais que a experiência me mostre o contrário, sempre acho que aquele barulhinho feito pelo telefone celular é pra me alertar o recebimento de uma mensagem escrita por um humano, exclusivamente para mim. Tuuu, toca o aparelho e vou correndo para ver quem me escreve. Decepção: “Clientes TIM tem mais vantagens na Pizza Hut! Ligando do seu TIM, vc compra uma Cheesy Pop via delivery (4003-3043) e ganha uma pizza media. Valido de seg. a sexta”. Nem pra escrever a palavra “você” por inteiro eles se dão ao trabalho. Acentuação, nem se fala.

Sexta-feira à noite, chega uma mensagem. Convite para sair? Não, uma promoção “imperdível” para ganhar 25 minutos grátis, por mês, em ligações.

O Procon aceita reclamações por conta das falsas expectativas que a TIM provoca em mim quase que diariamente? Mereço uma indenização milionária.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Corrente.

Agora eu não me sinto mais um excluído da blogosfera. André, do Cataclisma14, me incluiu numa corrente de blogues e pediu para eu citar cinco coisas que eu sei fazer e todo mundo também sabe. Vou quebrar a corrente porque acho que passaria vexame por não ser muito entrosado com a tuma dos blogues.

Ah, já sei. Vou convidar José Dirceu, Marcelo Tas, Bruna Surfistinha, Neil Gaiman e Fernando Meirelles para darem seus pitacos. Se passarem por aqui, estão intimados.

Cinco coisas que eu sei fazer e todo mundo também sabe:

1 – Ser roubado – É difícil passar ileso. Uma hora, alguém vai te assaltar Eu mesmo já fui assaltado mais de dez vezes, sendo que em determinado ano foram seis ocorrências. Já levaram de tudo: celular, carteira, mochila, camisa e boné (num tempo imemoriável quando se usavam bonés de times de basquete americano). Certa vez um ladrão teve a maldade de levar meu lanche que consistia num Toddynho e um pacote de Rufles. Pura maldade.

2 – Ser tapeado por vendedores – Variação da primeira habilidade, mas não envolve violência física, apenas a lábia. Vendedores são seus inimigos, por mais que eles tentem ser simpáticos. Fazem promoções do tipo “um é R$ 2 e dois é R$ 4” e você acaba pensando que fez bom negócio. E não, aquela camisa não ficou uma maravilha em você.

3 – Ovos mexidos – Qualquer um, de dementes a portadores de Mal de Parkinson, sabe fazer ovos mexidos, esta grande maravilha da gastronomia. Sem este insubstituível talento, as férias em casas de praia seriam muito mais complicadas. Ovo mexido pra comer com pão no café da manhã, pra dar sustância ao Miojo no almoço e novamente pra colocar no pão durante o jantar (isso se ainda houver pão).

4 – Insultar – É verdade que as formas mais simples de ofensa são acessíveis a todos, mas para realizar esta atividade de forma competente é necessária uma boa dose de criatividade e sofisticação. Quem é chamado um dia de filho da puta esquece logo. Mas experimente xingar o mesmo de filho de genitora promíscua. Ele dificilmente esquecerá e, quem sabe, até terá orgulho.

5 - Lamentar-se – “Eu não deveria ter gastando tanto com uma samba-canção de seda” ou “nunca que eu deveria ter dado para ele” são pensamentos que, respectivamente (ou não) assolam homens e mulheres. A impossibilidade de corrigir feitos pouco louváveis resulta sempre em lamúria. Não há como escapar. Até hoje eu me lamento por coisas feitas muitos anos atrás, como ter ido ver Casamento Grego no cinema, definitivamente, o pior filme da história da humanidade.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Boca em obras

Certos procedimentos odontológicos deveriam ser feitos com anestesia geral. Não tanto pela dor, mas pelo incômodo que causam. Fui ao dentista para tratar uma cárie num dente lá do fundão da boca. Após duas injeções de anestesia local, nem sente direito a moça cutucando as coisas. Ela poderia rasgar minha bochecha que eu só sentiria depois que o sangue escorresse até o meu pescoço.

É, a anestesia funciona. Mas que coisa desagradável é aquela furadeira de dentista. Faz um barulho repetitivo, parece uma reforma acontecendo dentro da boca. E reforma é sempre uma coisa chata: faz sujeira e atrapalha o funcionamento das coisas. Claro que dentistas costumam ser mais delicados e rápidos que pedreiros, mas ainda assim causam transtornos. E, o pior, dentro de você.

Com o passar dos minutos se sente cada vez mais o inchaço na metade do rosto onde o dente está localizado. Me sinto como um baiacu inflado parcialmente. Não é bonito.

Adoraria que me dessem uma anestesia geral. Dormir sem me incomodar com o barulho, os dedos passeando pela minha boca ou com meia face inchada. Porque nada pior do que sair do dentista falando com a língua mole e jeitinho de quem acabou de ter um derrame e perdeu metade dos movimentos faciais.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Risadinha é que era mulher de verdade

“Namora comigo?” (e suas inúmeras variações) é um dos pedidos mais estranhos que alguém pode ouvir. É razoável perguntar “posso te ver amanhã?” e coisas do tipo. E depois de vários amanhãs, creio que as pessoas estão namorando. Pessoas saudáveis, acredito, se juntam, simplesmente, sem formalidade.

Algo está fora dos eixos num relacionamento quando um pedido de namoro é dito ou tem de ser feito. Sobretudo quando em menos de três semanas se recebe dois pedidos de namoro de pessoas distintas. Algo REALMENTE está muito errado. E não tem nada a ver com feromônios.

Da última vez que alguém havia me pedido em namoro eu estava no terceiro ano do colégio. Esqueci o nome dela, mas eu a apelidei secretamente de Risadinha. Ela era mórmon e andava sempre com um sorriso entre o demente e histérico, uma feição que cairia bem tanto num assassino sádico quanto num drogado cheio de ácido.

Pois uma tarde Risadinha me abordou e se apresentou pra mim. Era assustador. Por vários dias seguidos ela ficou do lado de fora da sala de aula esperando que eu saísse para o recreio. Sem escapatória, ouvia histórias de aparições de Jesus e comentários simpáticos sobre mim. E ela dizendo isso com o olhar fixo e seu sorriso retardado.Uma maneira bem bizarra de flertar.

Até que, após 15 dias de conversas que eram quase monólogos dela, Risadinha me pediu em namoro. Deus, eu teria ficado menos assustado se a Virgem Maria aparecesse na coxinha que eu estava comendo na hora. Gaguejei algumas palavras fugi junto com o som do sinal que anunciava do fim do recreio.

Depois Risadinha nunca mais falou comigo. Mas fez o mesmo tipo de abordagem com um conhecido meu, que também não topou o relacionamento.

Hoje, as Risadinhas são outras. Mulheres mais velhas, supostamente maduras e sãs. Mas, no fim das contas, não mudam muito o resultado final. Continua tudo pouquíssimo sofisticado. Só é mais difícil reconhecer o estado de perturbação mental, porque elas não têm trejeitos de maníacos e sabem esconder bem suas neuroses. Risadinha, que saudade. Você era mais sincera e descomplicada.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Síndrome de Regina Duarte

Não sei por que a humanidade tem tanto medo de tudo. Medo de morrer, de se apaixonar ou de ficar só são alguns dos temores mais típicos. Gente excêntrica pode tornar as coisas um tanto sofisticadas, como a Regina Duarte que tinha (talvez ainda tenha) medo do Lula. Particularmente, considero a Malu Mulher mais medonha que o barbudo, mas vá lá. Afinal, o inconsciente humano é inconsciente mesmo.

Na sociedade cristã ocidental (pareço sofisticado falando assim, não?), essa insegurança já começa na infância, quando se deixa de aproveitar certas brincadeiras por medo de que o Papai do Céu castigue. Coisa infundada, porque não me lembro de nenhum amigo mais travesso que tenha sofrido com alguma praga de gafanhotos ou a morte do primogênito. Este último seria ainda mais remoto, principalmente porque o sexo entre crianças era coisa bem pouco em voga na minha geração. Hoje, qualquer criança de oito anos provavelmente tem uma vida sexual mais ativa e animada que a minha.

Já no Oriente Médio, Alá e Deus até aprovam as brincadeiras mais pesadas, possibilitando às crianças judias e israelenses uma infância mais saudável. O coleguinha judeu roubou suas figurinhas no jogo do bafo? Massacre o vilarejo dele e ainda sonhe com a promessa de 72 virgens no céu! Essas crianças, sim, viram adultos sem medo quando conseguem ultrapassar a puberdade intactos a todos os atentados à sua vida.

Agora, na lira dos 20 anos, uma das coisas que mais ouço é “tenho medo”. Dói nos nervos essa geração de frouxos com medo de sentir qualquer coisa que seja simplesmente sentir. Um amigo pensa em terminar um namoro com medo de gostar de verdade de seu namorado. Outra me diz que não quer começar um relacionamento pelo mesmo pavor: gostar, amar, sei lá.

Medo de gostar? Me explica. Acho perfeitamente razoável que se tenha medo de coisas como uma punção lombar, músicas da Björk, Receita Federal ou filmes eróticos com pessoas besuntadas. Mas se preocupar em não se apegar a alguém pelo temor de que essa pessoa um dia pode sumir da sua vida é estranho e antinatural. Tudo tem um ponto final. Pra que temer?

Dizem que isso é ser racional. Parece-me estúpido, isso sim.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Lacuna

Vivo, por ora, um estado de não plenitude das coisas. Não é insatisfação com o que me é disponível, mas um estranhamento pela ausência de quem já foi tão presente em minha vida.

Os últimos cinco anos foram os que mais surgiram e sumiram pessoas da minha vida: amor e amizades, ambos na forma mais intensa e apaixonada. E quase todos desapareceram.

Vez ou outra nos esbarramos e é sempre o mesmo: olhares estranhos, desvio de caminhos ou indiferença, simplesmente. A reação mais eloqüente que obtemos desse encontro é talvez um sorriso com câimbra.

Às vezes, de uma tentativa sincera de reaproximação acontece um abraço, mas os braços parecem não mais saber se enlaçar. Desconfortável. E triste.

Parece que as pessoas morrem não da forma literal, mas de maneira metafórica, coisa muito mais desagradável. Acostumar com a idéia de que elas não estão mais ali nem em qualquer lugar é bem ruim. Sobretudo porque não é possível acostumar-se.