Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Mirosmar e Welson

Aproveitando essa onda de boatos sobre o fim da dupla, aproveito pra postar um texto meu publicado no Jornal do Commercio em 2008.

Talvez uma descrição superficial deles não impressione. São pequenos (ambos têm cerca de 1,60m de altura), usam roupas justas e botinhas de couro e carregam um sotaque forte do interior de Goiás. Mas mesmo destoando dos padrões do showbiz, Mirosmar e Welson são, inegavelmente, um sucesso. A dupla, que hoje atende pelo nome artístico de Zezé di Camargo e Luciano, consegue cativar sua platéia, seja numa apresentação musical ou numa entrevista coletiva, como a realizada na última quinta-feira, num hotel em Piedade, Jaboatão dos Guararapes. Na ocasião, a dupla conversou sobre o novo show, que tem sua última apresentação no Recife hoje, além de discutir os 16 anos de carreira e falar sobre política.

Sentados em poltronas forradas com um tecido imitando pele de onça, Zezé di Camargo e Luciano fazem pose de popstars para uma platéia de jornalistas que lota alvoroçada uma pequena sala do hotel. Tão pouco naturais quanto o material que cobre as cadeiras são algumas respostas às perguntas feitas pelos repórteres, que de tão repetidas soam como falas previamente ensaiadas. Indagados pela enésima vez sobre o governo Lula (eles aderiram à campanha de 2002, fazendo shows em comícios e gravando a música do programa eleitoral), dizem que têm algumas ressalvas, mas não se sentem arrependidos de terem dado o seu voto ao atual presidente.

“Se você analisar bem o governo Lula, verá que ele é infinitamente melhor do que o de Fernando Henrique Cardoso”, afirma Luciano. Entre os pontos de discordância com o presidente, a segunda voz da dupla reclama de programas assistencialistas do governo, como o Fome Zero. “Básico não é cesta de alimentação, isso é obrigação. Básico é poder ir ao cinema, ter informação com formação”, diz, quase numa citação involuntária à música Comida, dos Titãs.

“O artista não tem que ficar por trás da cortina. Ele tem de se revelar como cidadão”, diz Zezé. “Esse é o grande papel social do artista”, completa o músico, afirmando que procura manter-se sempre informado acompanhando a política nacional, “porque de nada adianta falar sem ter embasamento”. No último dia 16, os dois músicos participaram de um movimento contra a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) até 2011, questão defendida por Luís Inácio. Organizado pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), o evento reuniu cerca de 15 mil pessoas no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo.

O movimento contra a CPMF não foi a única manifestação que ganhou o apoio da dupla. Zezé chegou a participar do Cansei, manifesto cívico criado pela empresariado e classe alta paulistanos criado após o acidente do avião da TAM em Guarulhos. Arrependido, Zezé diz que sua adesão foi precipitada. “Quando vi quem estava encabeçando o movimento, percebi que isso não ia a lugar algum”, diz se referindo ao empresário João Dória Jr., que ele classifica como “oportunista”. “Cansei do Cansei”, finaliza.

SHOW O discurso mais politizado parece ser uma mostra do amadurecimento pessoal de Zezé di Camargo e Luciano, evolução esta que eles também estão tentando levar para seu trabalho. Com o novo show, intitulado Duas horas de sucesso, os dois tentam quebrar parte do estigma de serem artistas românticos, fazendo incursões mais pops, com músicas como How can I go on, de Freddie Mercury e Hey Jude, dos Beatles.

E mesmo num tempo em que pouco ou nada se fala sobre duplas sertaneja – termo, aliás, bastante subjetivo - os dois afirmam que persistem no mercado fonográfico por conseguirem se reciclar. Em 16 anos de carreira, os irmãos já venderam mais de 24 milhões de álbuns, marca bastante significativa, ainda mais levando em consideração a frágil situação do mercado musical.

No Recife, a dupla faz alguns acréscimos no set list de 24 músicas prometido para as duas horas de show. “Aqui nós não temos fãs, mas legiões”, diz Zezé di Camargo e para homenagear esse público fiel, Feira de mangaio, de Sivuca e Vida de Viajante, de Luiz Gonzaga, fazem parte do repertório apenas na cidade. Já o encerramento do show deve ficar mesmo com o hit grudento É o amor, que levou a dupla a vender quase dois milhões de discos na sua estréia, em 1991.

SURPRESA Antes da coletiva acabar Zezé Di Camargo e Luciano receberam a inesperada visita de uma fã que ficou famosa recentemente. Rozinete Palmeira Serrão, de 51 anos, que deu luz aos próprios netos, já que sua filha tem o útero atrofiado e não poderia gestar filhos. Em companhia de Cláudia Michelle, a mãe biológica dos gêmeos recém-nascidos Antônio Bento e Victor Gabriel, a mãe-avó conheceu pessoalmente seus ídolos. Empolgada com o encontro, ela revelou que os bebês passaram os nove meses dentro da barriga dela ouvindo as canções dos dois irmãos. “Foi por isso que nasceu uma dupla. Se você escutasse J. Quest teria nascido um quinteto”, brincou Luciano.

[Atualização]

Abaixo, o vídeo do suposto anúncio do fim da dupla:



Mirosmar e Welson

Aproveitando essa onda de boatos sobre o fim da dupla, aproveito pra postar um texto meu publicado no Jornal do Commercio em 2008.

Talvez uma descrição superficial deles não impressione. São pequenos (ambos têm cerca de 1,60m de altura), usam roupas justas e botinhas de couro e carregam um sotaque forte do interior de Goiás. Mas mesmo destoando dos padrões do showbiz, Mirosmar e Welson são, inegavelmente, um sucesso. A dupla, que hoje atende pelo nome artístico de Zezé di Camargo e Luciano, consegue cativar sua platéia, seja numa apresentação musical ou numa entrevista coletiva, como a realizada na última quinta-feira, num hotel em Piedade, Jaboatão dos Guararapes. Na ocasião, a dupla conversou sobre o novo show, que tem sua última apresentação no Recife hoje, além de discutir os 16 anos de carreira e falar sobre política.

Sentados em poltronas forradas com um tecido imitando pele de onça, Zezé di Camargo e Luciano fazem pose de popstars para uma platéia de jornalistas que lota alvoroçada uma pequena sala do hotel. Tão pouco naturais quanto o material que cobre as cadeiras são algumas respostas às perguntas feitas pelos repórteres, que de tão repetidas soam como falas previamente ensaiadas. Indagados pela enésima vez sobre o governo Lula (eles aderiram à campanha de 2002, fazendo shows em comícios e gravando a música do programa eleitoral), dizem que têm algumas ressalvas, mas não se sentem arrependidos de terem dado o seu voto ao atual presidente.

“Se você analisar bem o governo Lula, verá que ele é infinitamente melhor do que o de Fernando Henrique Cardoso”, afirma Luciano. Entre os pontos de discordância com o presidente, a segunda voz da dupla reclama de programas assistencialistas do governo, como o Fome Zero. “Básico não é cesta de alimentação, isso é obrigação. Básico é poder ir ao cinema, ter informação com formação”, diz, quase numa citação involuntária à música Comida, dos Titãs.

“O artista não tem que ficar por trás da cortina. Ele tem de se revelar como cidadão”, diz Zezé. “Esse é o grande papel social do artista”, completa o músico, afirmando que procura manter-se sempre informado acompanhando a política nacional, “porque de nada adianta falar sem ter embasamento”. No último dia 16, os dois músicos participaram de um movimento contra a prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) até 2011, questão defendida por Luís Inácio. Organizado pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), o evento reuniu cerca de 15 mil pessoas no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo.

O movimento contra a CPMF não foi a única manifestação que ganhou o apoio da dupla. Zezé chegou a participar do Cansei, manifesto cívico criado pela empresariado e classe alta paulistanos criado após o acidente do avião da TAM em Guarulhos. Arrependido, Zezé diz que sua adesão foi precipitada. “Quando vi quem estava encabeçando o movimento, percebi que isso não ia a lugar algum”, diz se referindo ao empresário João Dória Jr., que ele classifica como “oportunista”. “Cansei do Cansei”, finaliza.

SHOW O discurso mais politizado parece ser uma mostra do amadurecimento pessoal de Zezé di Camargo e Luciano, evolução esta que eles também estão tentando levar para seu trabalho. Com o novo show, intitulado Duas horas de sucesso, os dois tentam quebrar parte do estigma de serem artistas românticos, fazendo incursões mais pops, com músicas como How can I go on, de Freddie Mercury e Hey Jude, dos Beatles.

E mesmo num tempo em que pouco ou nada se fala sobre duplas sertaneja – termo, aliás, bastante subjetivo - os dois afirmam que persistem no mercado fonográfico por conseguirem se reciclar. Em 16 anos de carreira, os irmãos já venderam mais de 24 milhões de álbuns, marca bastante significativa, ainda mais levando em consideração a frágil situação do mercado musical.

No Recife, a dupla faz alguns acréscimos no set list de 24 músicas prometido para as duas horas de show. “Aqui nós não temos fãs, mas legiões”, diz Zezé di Camargo e para homenagear esse público fiel, Feira de mangaio, de Sivuca e Vida de Viajante, de Luiz Gonzaga, fazem parte do repertório apenas na cidade. Já o encerramento do show deve ficar mesmo com o hit grudento É o amor, que levou a dupla a vender quase dois milhões de discos na sua estréia, em 1991.

SURPRESA Antes da coletiva acabar Zezé Di Camargo e Luciano receberam a inesperada visita de uma fã que ficou famosa recentemente. Rozinete Palmeira Serrão, de 51 anos, que deu luz aos próprios netos, já que sua filha tem o útero atrofiado e não poderia gestar filhos. Em companhia de Cláudia Michelle, a mãe biológica dos gêmeos recém-nascidos Antônio Bento e Victor Gabriel, a mãe-avó conheceu pessoalmente seus ídolos. Empolgada com o encontro, ela revelou que os bebês passaram os nove meses dentro da barriga dela ouvindo as canções dos dois irmãos. “Foi por isso que nasceu uma dupla. Se você escutasse J. Quest teria nascido um quinteto”, brincou Luciano.

Segunda-feira, Junho 27, 2011

Mercado de trabalho afetivo

Mesmo nos períodos em que desejo profundamente estar solteiro e me sinto contente com a situação, vez por outra bate uma sensação semelhante a estar desempregado.
Essa satisfação com o atual status funciona como uma espécie de seguro emprego ou indenização pós-demissão voluntária, mas por mais que ela esteja rendendo muito bem, você acaba sentindo alguma saudade do trabalho.

Não se trata de sentir falta do, digamos, antigo emprego. Afinal, mesmo que gostasse profundamente daquele ambiente de trabalho, há muito eu estava insatisfeito. Havia até pensado que talvez um período de férias fosse suficiente para espantar essa sensação, mas não. Era caso para se demitir mesmo.

E, então, fiquei solteiro novamente. E ainda que os trabalhos temporários no campo afetivo pareçam ser mais do que suficientes e trazendo um rendimento bem superior ao proporcionado pelo antigo emprego, alguma parte de mim fica pensando que uma hora terei de mandar currículos e prospectar uma nova vaga.

Mas, certamente, o melhor agora é mesmo me manter no mercado afetivo informal.

Sexta-feira, Junho 17, 2011

A escova de dentes

Sempre achei que a melhor representação do fim de um relacionamento é jogar fora a escova de dentes do até bem pouco tempo atrás ser amado. Enquanto a minha escova verde não estiver sozinha no pote do balcão do banheiro, continuo me sentindo, inevitavelmente, comprometido.

Aí encaro por alguns instantes aquela escova de dentes Aquafresh vermelha. Cerdas relativamente gastas implorando que eu faça uma analogia entre o seu estado e o desgaste da relação. Fujo desse pensamento rasteiro e concentro o olhar no objeto.

O tempo que gasto antes de arremessar a escova na lixeira não é de dúvida ou hesitação; estou muito convicto. É quase prazeroso o momento, ainda que melancólico.

Triunfante como Michael Jordan (não tenho nenhuma referência mais atual no basquete) fazendo uma cesta decisiva nos últimos momentos do jogo, acerto a escova na lixeira sem dificuldade. Vitória.

Domingo, Fevereiro 13, 2011

O que me levou a ser vegan

Mesmo o maior fã de rodízios de churrascaria acha absurdo e desumano alguém matar um cachorro. A minha mãe mesmo diz que ama animais, que humanos não valem nada e que quem não gosta de bicho merece morrer. Mas ela não consegue nem quer abdicar de comer aquele coração de galinha ou uma picanha. Se isso não for uma tremenda incoerência da maioria das pessoas, não sei mais o que pode ser.

Tornei-me vegetariano, acima de tudo, por questão de coerência. Gosto de animais e percebi que não faz sentido eu ter compaixão para com meus animais de estimação, me indignar com que usa casacos de pele ou ficar puto quando vejo alguém batendo num cavalo e, ao mesmo tempo, curtir um churrasco no final de semana. Sobretudo sabendo que a ingestão de carnes e derivados de animais não é algo indispensável para minha saúde e que existe um bocado de sofrimento até esses produtos chegarem ao meu prato.

Eu tento entender e respeitar quem diz que não é capaz de mudar sua dieta, mas não consigo aceitar que alguém me diga que não tem nada de errado no modo de produção desses alimentos. Utilizar pseudo-argumentos de cadeia alimentar é desculpa das mais esfarrapadas. Aliás, somente quando é conveniente nos colocamos no mesmo patamar de outros animais: se é um leão matando uma zebra bonitinha é porque ele é uma besta selvagem, mas se somos nós comendo vitelo, estamos apenas exercendo nosso papel superior na cadeia alimentar, a lei do mais forte etc.

Dizer que temos direito sobre outras criaturas ditas menos inteligentes abre brecha para inúmeros disparates. Posso subjugar pessoas de intelecto inferior ao meu? Posso bater num deficiente mental? E as crianças?

Alegar que animais não sofrem é outra mentira deslavada. Espero, sinceramente, que quem diz isso não acredite de verdade no que está falando. Vacas, porcos, galinhas, peixes e tantas outras criaturas das quais nos alimentamos são tão sensíveis à dor quanto nós. É falsa ingenuidade achar que eles não sofrem.

Se nada disso parece errado para quem consome carne e outros produtos de origem animal, é importante dizer também que:

- quase 30% de toda superfície do planeta é dedicada ao pasto do gado (estamos desmatando para isso, vide Amazônia);

- pelo menos 8% de toda água do mundo é destinada à irrigação de colheitas para alimentação de gado. São necessários de 20 a 30 mil litros de água para produzir um quilo de carne. Pra produzir um quilo de trigo, por exemplo, bastam apenas 150 litros de água.

- 1/3 de toda produção agrícola é para alimentar animais de corte. Ou seja, para aquele bife chegar na nossa mesa, foram consumidos centenas de quilos de alimentos. A quantidade de alimento que animal rende depois de morto é infinitamente menor do que a que ele consume.

Resumindo, a cadeia produtiva da carne demanda muito mais custos e energia do que alimentos de origem vegetal. E não vou nem falar do quanto é mais saudável uma dieta vegetariana.

Domingo, Novembro 07, 2010

Perdi pro netbook

Depois de tentar e tentar por terras nativas, encontrei há pouco alguém interessante que morava a pouco mais de 3 mil quilômetros de distância. Menina bonita, inteligente, divertida, letrada e, aparentemente, com poucos defeitos, exceto talvez o fato de gostar de filmes iranianos e outras coisas que considero por demais cult, mas nada ofensivo. Pois bem, decidi num feriado ir até lá, naquela expectativa Vanessa Rangel de e-aí-o-amor-pode-acontecer-de-novo-pra-você.

E o palpite foi certeiro. Ou, pelo menos, assim pareceu.
Foram quatro dias da mais melosa e bonitinha paixão, como há muito tempo não (me) via. De me fazer passar vários momentos acordado no meio da noite olhando bobo ela esfregando os pés enquanto dormia. De fazer aquela coisa abominável que é ficar falando fofo um com o outro. De chorar na hora de tchau por conta da perspectiva de só vê-la dali a alguns meses.

Voltei, nós falávamos todos os dias por telefone, pensamos na possibilidade dela vir morar comigo na metade do próximo ano, quando ela acabasse a faculdade. Cogitei seriamente também vender meu apartamento e coisas para tentar a vida com ela em São Paulo, que é um sonho dela. Não tenho vontade de sair do Recife, gosto daqui. Mas me sentia disposto a isso. Talvez eu também pudesse me renovar profissionalmente, sei lá. Achei que seria bom e que qualquer lugar com ela seria um bom lugar.

Os planos duraram algumas semanas. Em algum momento pareceu a ela que eu estava perdendo o interesse e ela me fez sentir a mesma coisa. Ela me dizia que eu precisava arrumar uma namorada por aqui, que pudesse me dar carinho e outras coisas que ela não poderia fazer a distância. “É uma pena, mas seria o melhor”, me dizia, dando a entender que ela realmente não queria tentar.

Mas a fala mais marcante foi “gosto de ti, mas não o suficiente para gastar dinheiro em passagens, prefiro comprar um netbook, por exemplo”. Foi o estopim para minha total desilusão, como Franz Ferdinand sendo assassinado em Saravejo e dando razão pra começarem a I Guerra Mundial.

Pois é, desistimos.

Mas que fosse, ao menos, um notebook.

Domingo, Agosto 08, 2010

Chuva, pijamas e baixo-astral

Minha mãe desistiu de sair para fazer compras por conta da chuva. Na verdade, está apenas chuviscando. E, de qualquer maneira, ela tem sombrinha e um carro, que podem ser bem úteis nessa empreitada. Ela tem até uns dois pares de botas de borracha engraçadas parecidas com as que crianças usavam em dias chuvosos para ir ao colégio; segundo ela me contou certa vez, é um acessório fashion, mas não levei muito a sério. Nada, portanto, impede minha mãe de ir até a loja comprar pijamas novos como ela havia planejado ontem.

Até acho positivo que minha mãe se sinta impedida de comprar mais pijamas. No último mês, ela comprou uns quatro e isso tem que parar mesmo. Mas me preocupa que, além dela, boa parte das pessoas deixe de seguir sua vida normalmente apenas por receio de se molhar um pouco. Não entendo.

Temos guarda-chuvas, capas, veículos e botinhas ridículas, podemos tudo, não há desculpa ficar em casa porque está chovendo. Talvez o fato de morar numa cidade em que faz sol e calor durante quase todo o ano tornou quase a população do Recife muito sensível a essa mudança de clima. Mas acho mesmo que a chuva é apenas uma justificativa fraca para a eterna preguiça de viver.

Segunda-feira, Junho 28, 2010

Fiquem

Não sei exatamente qual é o problema com minha cidade natal, o Recife, mas um número considerável de amigos quer deixá-la e uns tantos outros já a deixaram.

Significativa parcela deles deseja São Paulo, citando como atrativo mercado profissional maior, mais opções de lazer, menos violência, pessoas mais interessantes e o fato de ser uma cidade, de fato, grande.
Entendo, acho plausível e tudo mais. São Paulo é realmente bacana. Mas também é cinzenta demais. E me parece ter um ritmo acelerado demais e exigir um modus operandi de vida diferente, mais desgastante e menos caloroso.

Não acho minha cidade algo sensacional (bonito mesmo é o Rio de Janeiro), mas me sinto confortável nela, mesmo com todos os seus defeitos. Uso o mesmo pensamento de quando aceitamos as complicações e falhas de alguém para poder desfrutar de suas virtudes.

E, bem, o que me faz acima de tudo querer ficar no Recife são as amizades que tenho ao redor. Não me prendo ao lugar, mas às pessoas. Não me incomodaria de me mudar pra uma cidade ainda menor e mais jeca se eu puder levar todos os amigos queridos pra viver por perto. Tendo eletricidade, internet decente e boas condições de saneamento já tá ótimo pra mim.

Sábado, Junho 26, 2010

O tempo nunca dá tempo o bastante

Logo mais irei completar três anos de real inclusão no modelo mais típico de vida do nosso querido mundo capitalista. De segunda a sexta, tenho uma jornada de trabalho longa, almoço apressado e deslocamento para os empregos (trabalho em dois lugares). Gasto, habitualmente, mais de 12 horas do meu dia nesse processo.

Como compensação, recebo salário e assim posso comer e fazer todas as outras coisas necessárias para a sobrevivência, já que pra pagar as coisas é necessário dinheiro ou favores sexuais (embora, que eu me recorde, ninguém tenha me oferecido essa opção de pagamento, normalmente pedem em espécie ou no cartão).

Também sobram uns trocados para comprar coisas que me deixam feliz ou, ao menos, me fazem achar que estou feliz. Ontem mesmo comprei um moedor de pimenta no formato do R2-D2 e trouxe uma boa sensação.

Por outro lado, não me sobra muito tempo livre para viver propriamente. Esse imperfeito corpo exige descanso diário e leva umas sete ou oito horas do meu dia, porque custo muito a pegar no sono e normalmente acordo no meio da noite. No fim das contas, durmo umas seis horas por dia, mas sempre perco algum tempo no processo. Sempre me sinto cansado.

Acrescentem nessa rotina diária as coisas inevitáveis, como tomar banho, escovar dentes, se alimentar, tarefas domésticas etc.

Aí quando não tenho nenhuma obrigação e o tempo está totalmente à disposição, me ponho a pensar como aproveitá-lo. Quando finalmente decido o que fazer, já estou muito cansado e não há mais tempo.

Quinta-feira, Junho 17, 2010

Mamã, papá

Logo que me acomodo no avião e reparo no garotinho de uns dois anos de idade com a sua mãe nas poltronas ao lado, sinto aquele inevitável instinto de “ah, também quero isso pra mim um dia”. Ele é tão adorável brincando com seu boneco de pelúcia do Garibaldo do Vila Sésamo!

Três horas depois da decolagem, eu já não o acho tão legal assim e ele também me parece ter ritmo e estilo de vida incompatíveis com os meus. O que também me faz pensar o quão conflituosa seria nossa relação quando ele fosse um adulto e eu um idoso.

Quatro horas após, deixo de ter qualquer simpatia e o abomino com todas as minhas forças por sua inquietação sem limites e barulho que não é abafado nem por meu mp3 player tocando Ramones no volume máximo.

Na quinta hora, quando ele finalmente dorme e eu já desisti disso,me sinto cativado novamente.

Deve ser sempre conflituosa a relação. Mas, mesmo assim, acho que quero ser pai um dia.

Domingo, Maio 23, 2010

Darwin errou

Talvez a seleção natural e a seleção sexual funcionem bem na natureza, com moscas, tigres de bengala, cágados ou pavões, mas entre humanos, sinceramente, não acredito que isso exista ou funcione.
No ônibus, no metrô, na boate, no shopping, no centro da cidade, ou seja lá onde você for, notará espécimes que, sob a perspectiva darwiana, não deveriam continuar procriando e sendo o tipo predominante. Saia de casa e observe ao redor. Você sempre verá por aí aquela menina com roupas de tons cítricos justíssimas, a periguete de top e piercing no umbigo, o saradão de regata, o tiozinho assistindo novela no celular xingling, versões híbridas de tudo isso ou com características ainda piores.
Mesmo sendo esteticamente desinteressantes, intelectualmente pouco desenvolvidos ou ambos, é esse grupo que está se reproduzindo em maior número e se perpetuando como dominantes . E qual a vantagem biológica que eles representam?
Mesmo não tendo características interessantes sob os aspectos do fenótipo nem, muito provavelmente, sob o ponto de vista genético, eles se reproduzem mais e mais. Portanto, Darwin, na cidade as suas ideias não valem muito. Certamente não há uma evolução das espécies, mas uma involução.

Domingo, Abril 11, 2010

Ex

Da mesma forma que o religioso crê sem necessariamente ter se encontrado cara a cara com Jesus, acredito em um monte de coisa que nunca vi ou não pude, efetivamente, comprovar sua existência. Uma dessas coisas é amizade entre ex-namorados.
Das sete namoradas que tive (talvez uma delas não considere como namoro, mas não tenho outro nome praquele contato diario e a escova de dentes vermelha no meu banheiro), apenas uma continuou presente na minha vida de forma significativa.
O problema para o baixo índice de aproveitamento de pessoas após o fim do relacionamento deve ter a ver com a maneira como a maioria dos namoros terminam. Obviamente, não faria muito sentido eu querer ser amigo da guria que me corneou num show do Capital Inicial (sofrimento em dobro) ou daquela outra que tentou decepar meu pênis. Ok, essa última não existe, estou apenas usando um exemplo para defender o meu ponto de vista.
Terminamos relacionamentos porque não é mais viável ou agradável estar com aquela pessoa, motivos perfeitamente justificáveis para também para a inexistência de amizade.
Foi por não ser mais viável nem agradável que terminamos, eu e minha hoje amiga. Não sei como é que a amizade deu certo. Que nem aquela tia que fala de assombração: “não sei explicar, mas que existe, existe”. Amizade entre ex-namorados. Existe.

Quarta-feira, Março 31, 2010

Paul McCartney não vai atrás do trio elétrico

Quase sempre que pensei em alguém para estar do meu lado, imaginei uma pessoa de gostos semelhantes, aquele velho conceito de alma gêmea. Não sei se por amadurecimento ou pela dificuldade de encontrar uma mulher que goste de Beatles, Kafka, Hornby, quadrinhos e videogame, finalmente reparei que diferenças são importantes e saudáveis. Querer alguém muito parecido conosco é meio doentio, narcisista.
Mas essas diferenças, no fim das contas, complicam um bocado o relacionamento. Certos aspectos vão muito além de incompatibilidades de gosto.

Porque alguns dos nossos gostos não representam apenas preferências, mas sintetizam nossa personalidade. Por exemplo: o que me impossibilita de funcionar bem com uma guria fã do Chiclete com Banana não é incompatibilidade de gostos. Essas coisas conseguimos, com algum (muito) custo, superar. É incompatibilidade de estilo de vida.
Não é preconceito, mas sei perfeitamente que o ritmo e o estilo dessa pessoa não combinariam de forma alguma com os meus. Talvez pudéssemos nos dar bem e gostar sinceramente um do outro, mas, em algum momento, a sombra de Bel Marques ia acabar por destruir nossa relação. Seria um relacionamento datado, sem dúvida. Não daria certo.

É um tanto quanto determinista, mas real.

E o grande problema da gente é saber (e conseguir) dizer não pra pessoa antes que as coisas se compliquem. Porque o Paul McCartney nunca, mas nunca mesmo, vai querer ir atrás do trio elétrico no carnaval de Salvador. Mesmo que ele respeite (o que seria totalmente improvável) musicalmente o Bel Marques. Não dá, sabe?

Temos muito mais dificuldades pra lidar com diferenças do que imaginamos.

Sábado, Agosto 22, 2009

Junkie

É a primeira vez em sete ou oito anos que passo tanto tempo solteiro. Já se vão uns seis meses desde o último relacionamento. Parece bem pouco tempo. Aliás, é, sim, pouco tempo. O problema é ter me tornado dependente disso; caso tão problemático quanto o de um viciado em crack.
E como junkie amoroso que me tornei, alimentei meu vício quase sempre de forma irresponsável. Experimentei todos os tipos que me apareceram, pela simples necessidade de estar entorpecido na maior parte do tempo:
- Teve aquela namorada que quase me matou por overdose de sentimento.
- A que eu experimentei achando que iria pirar, mas não deu barato algum.
- Aquelas duas ou três que foram, indiscutivelmente, bad trips.
- A alucinógena, que me fez ver e sentir coisas que, de fato, não existiam.
- E, claro, houve também quem me fizesse sentir verdadeiramente feliz e despreocupado.
Hoje, estou limpo, mas não posso falar “venci o vício”, como diz aquele suposto ex-viciado em crack que vem me vender canetas com mensagens evangélicas no ônibus. Porque ainda tenho súbitas crises de abstinência afetiva. E nessas horas me pergunto se realmente quero ficar longe disso. Talvez seja apenas uma questão de escolher melhor quem vai me fazer chapar.

Domingo, Junho 28, 2009

Meias

A parte mais difícil é sempre a chegada em casa. Há muitos anos seguíamos aquele ritual: sempre que eu chegasse da rua, lhe entregaria minhas meias usadas. Elas talvez não merecessem qualquer outro destino que não a máquina de lavar, mas meu cachorro Freud fazia questão de pegá-las sempre.

E agora ao chegar em casa me incomoda a tranqüilidade que hoje é tirar as meias sem o alvoroço de Freud tentando arrancá-las de meus pés com os dentes. Não encontro mais minhas meias sujas da saliva espalhadas pela casa. E, nossa, como sinto falta disso.

Faz pouco mais de um mês que Freud morreu. Achava que ele viveria para completar 14 anos em setembro. Foram mais de 13 anos com ele por perto. E muitos pares de meia furados.

Sexta-feira, Abril 10, 2009

Amor por um dia

A desconhecida chegou perto de mim perguntando se poderia colocar o carregador do celular dela na tomada que havia ao meu lado. E cerca uma hora depois disso eu estava perdidamente apaixonado por ela.

Jamais acreditei que esse tipo de história acontecesse de verdade e, menos ainda, que pudesse acontecer comigo, mas ontem vivi uma paixão de um dia.

Sem ter um lugar barato para dormir por mais um dia em NY, fui para o aeroporto JFK, procurar um voo com o máximo de escalas possíveis antes de chegar na Califórnia, o que resolveria meu problema de ter onde ficar durante a noite do dia 9. Cheguei logo cedo, de 10h30, e escolhi uma rota maluca cheia de conexões: Washington, Philadelphia e, por último, San Francisco. Mais de 20 horas para chegar ao meu destino e, assim, matar o tempo.

De 11h (meu primeiro voo só sairia de 21h45!), eis que chega a moça ruiva pedindo licença para plugar o carregador do celular na tomada próxima de mim. Svetlana, 21 anos, natural da Estônia, havia perdido o avião e estava decidindo o que fazer até o próximo voo.

E pouco tempo depois daquele papo quem-eu-sou-e-quem-é-você, estávamos plenamente íntimos, brincando um com o outro e falando sobre amores passados, sonhos etc. Entramos em comum acordo que deveríamos um dia viajar juntos para a Austrália e também para a Amazônia.

Passadas algumas horas, já estava morrendo de saudades dela. Aliás, confesso que sinto saudades e um aperto agora enquanto escrevo. Claro, ela teve de partir, assim como eu também partiria depois. E coração frágil como sou, fiquei choroso na despedida.

Combinamos de nos reencontrar daqui a três anos. Dia nove de abril, no terminal três do aeroporto JFK, às 15h. Espero que a veja antes disso. Ou não. Talvez a graça e a beleza de tudo isso seja essa saudade boa e a sensação de que algo assim não vai se repetir jamais.

Amei Svetlana nesse dia 9.