Sábado, Agosto 22, 2009

Junkie

É a primeira vez em sete ou oito anos que passo tanto tempo solteiro. Já se vão uns seis meses desde o último relacionamento. Parece bem pouco tempo. Aliás, é, sim, pouco tempo. O problema é ter me tornado dependente disso; caso tão problemático quanto o de um viciado em crack.
E como junkie amoroso que me tornei, alimentei meu vício quase sempre de forma irresponsável. Experimentei todos os tipos que me apareceram, pela simples necessidade de estar entorpecido na maior parte do tempo:
- Teve aquela namorada que quase me matou por overdose de sentimento.
- A que eu experimentei achando que iria pirar, mas não deu barato algum.
- Aquelas duas ou três que foram, indiscutivelmente, bad trips.
- A alucinógena, que me fez ver e sentir coisas que, de fato, não existiam.
- E, claro, houve também quem me fizesse sentir verdadeiramente feliz e despreocupado.
Hoje, estou limpo, mas não posso falar “venci o vício”, como diz aquele suposto ex-viciado em crack que vem me vender canetas com mensagens evangélicas no ônibus. Porque ainda tenho súbitas crises de abstinência afetiva. E nessas horas me pergunto se realmente quero ficar longe disso. Talvez seja apenas uma questão de escolher melhor quem vai me fazer chapar.

Domingo, Junho 28, 2009

Meias

A parte mais difícil é sempre a chegada em casa. Há muitos anos seguíamos aquele ritual: sempre que eu chegasse da rua, lhe entregaria minhas meias usadas. Elas talvez não merecessem qualquer outro destino que não a máquina de lavar, mas meu cachorro Freud fazia questão de pegá-las sempre.

E agora ao chegar em casa me incomoda a tranqüilidade que hoje é tirar as meias sem o alvoroço de Freud tentando arrancá-las de meus pés com os dentes. Não encontro mais minhas meias sujas da saliva espalhadas pela casa. E, nossa, como sinto falta disso.

Faz pouco mais de um mês que Freud morreu. Achava que ele viveria para completar 14 anos em setembro. Foram mais de 13 anos com ele por perto. E muitos pares de meia furados.

Sexta-feira, Abril 10, 2009

Amor por um dia

A desconhecida chegou perto de mim perguntando se poderia colocar o carregador do celular dela na tomada que havia ao meu lado. E cerca uma hora depois disso eu estava perdidamente apaixonado por ela.

Jamais acreditei que esse tipo de história acontecesse de verdade e, menos ainda, que pudesse acontecer comigo, mas ontem vivi uma paixão de um dia.

Sem ter um lugar barato para dormir por mais um dia em NY, fui para o aeroporto JFK, procurar um voo com o máximo de escalas possíveis antes de chegar na Califórnia, o que resolveria meu problema de ter onde ficar durante a noite do dia 9. Cheguei logo cedo, de 10h30, e escolhi uma rota maluca cheia de conexões: Washington, Philadelphia e, por último, San Francisco. Mais de 20 horas para chegar ao meu destino e, assim, matar o tempo.

De 11h (meu primeiro voo só sairia de 21h45!), eis que chega a moça ruiva pedindo licença para plugar o carregador do celular na tomada próxima de mim. Svetlana, 21 anos, natural da Estônia, havia perdido o avião e estava decidindo o que fazer até o próximo voo.

E pouco tempo depois daquele papo quem-eu-sou-e-quem-é-você, estávamos plenamente íntimos, brincando um com o outro e falando sobre amores passados, sonhos etc. Entramos em comum acordo que deveríamos um dia viajar juntos para a Austrália e também para a Amazônia.

Passadas algumas horas, já estava morrendo de saudades dela. Aliás, confesso que sinto saudades e um aperto agora enquanto escrevo. Claro, ela teve de partir, assim como eu também partiria depois. E coração frágil como sou, fiquei choroso na despedida.

Combinamos de nos reencontrar daqui a três anos. Dia nove de abril, no terminal três do aeroporto JFK, às 15h. Espero que a veja antes disso. Ou não. Talvez a graça e a beleza de tudo isso seja essa saudade boa e a sensação de que algo assim não vai se repetir jamais.

Amei Svetlana nesse dia 9.

Quarta-feira, Março 11, 2009

Os já não tão cabeludos caras de Liverpool



Há coisa de uns 13 anos, escutei pela primeira vez com atenção as duas coletâneas dos Beatles que existiam aqui em casa. Digo, com a atenção que um garoto de 11 anos pode ter. E mesmo sem compreender muita daquelas letras, aquele som me arrebatou.

O interesse surgiu por conta de um documentário que aqui no Brasil foi exibido pela Globo, o The Beatles Anthology. Eu ouvia por todo o canto falar desse documentário, sobre uma banda que era considerada a maior do mundo. “Uau, a melhor banda do mundo. Tenho que conhecer”. Aí fiquei durante uma semana inteira varando as noites para ver o programa, que passava tardão.

Aprendi tanta coisa com eles de lá pra cá. Sua música me fez sorrir tantas vezes; em outras ocasiões, chorar. A verdade é que essas canções me fizeram sentir quase todo tipo de emoção. E tenho certeza de que eu seria alguém menor sem os Beatles.

Posso dizer que eles me ensinaram a amar mais.

O ruim de tudo isso é que sou daquele tipo inconformado de já ter nascido sem qualquer possibilidade de vê-los. Claro, sofri tardiamente com a morte do Lennon. E, pior, em 2001, passei pela morte do George.

De todo jeito, sempre ficou aquela esperança de um dia ver um show do o Paul ou o do Ringo. E, incrível, essa hora está chegando. Eles vão se apresentar em Nova Iorque daqui a menos de um mês. Eu estarei lá.

Eu tenho um ingresso, um visto aprovado para os EUA e um monte de ansiedade.

Paul e Ringo. Eu não acredito.

Sábado, Março 07, 2009

Dieta emotiva

Assim como as gordinhas que no domingo dizem que vão iniciar o regime amanhã, venho tentado criar metas pra mim. Nada relacionado com minha massa corporal, mas com outro tipo de peso: carga emocional.

Resolvi que preciso me livrar de toda gordura sentimental que foi se acumulando ao longo dos anos por conta de uma dieta cheia de excessos. Sempre expus ou guardei sentimentos demais e amei ou odiei demais.

Chegou a hora da moderação, dieta balanceada e muito exercício para eliminar aquelas gorduras antigas que já estão entranhadas há não sei quanto tempo. E está dando resultados, já me sinto bem mais leve.

E quando eu estiver em plena forma, farei um belo dum banquete para comemorar.

Sexta-feira, Março 06, 2009

Coração em cana

Quando o PM encosta a viatura ao lado do meu carro e manda eu sair do veículo com os documentos tenho a certeza de que minha cota de situações improváveis é bem maior do que a das outras pessoas. Quem mais seria abordado por policiais no momento em que discute relação com a ex-namorada?

Com os olhos ainda úmidos da conversa, saio do carro com os documentos, amaldiçoando todas as escolhas que, de alguma forma, me levaram a estar ali naquele momento.

Alguém havia ligado para a polícia informando sobre um carro estranho parado na rua, diz o PM. Provavelmente achavam que eu estava vigiando alguma casa, fazendo sexo, aguardando um traficante ou sei lá o que. Vendo minha cara de choro, o policial pergunta o que houve. Tento explicar superficialmente:

- Não, não estávamos brigando, apenas conversando.

- Não, ela não é mais minha namorada.

- Não, eu que acabei o namoro, faz coisa de um mês.

- Sim, eu errei e queria me acertar com ela novamente.

- Não, acho que ela não me quer mais.

- Ela já chama outra pessoa de meu amor.

- Sim, ela é maior de idade, posso pegar os documentos dela também.

- Sou uma pessoa extremamente errática e confusa.

Enquanto faço o desabafo, outro policial anota meus dados, diz que tem que fazer um boletim de ocorrência. Esse era o bad cop.

E o bon cop continua a fazer perguntas sobre o meu relacionamento, notadamente querendo me ajudar a superar tudo.

Então o bad cop abre a mala da viatura e veste seu colete, me fazendo visualizar o momento em que serei algemado e jogado dento do porta-malas, tal qual poderia acontecer num romance de Kafka. Baixando o nível vertiginosamente, lembrei também daquela música de Bruno e Marrone, “seu guarda eu não sou vagabundo, me bata, me prenda, faça tudo comigo, só não me deixe ficar sem ela”. Tudo isso me veio à cabeça em uns quatro segundos.

Era só pra me intimidar, no fim das contas. Ainda bem que o bon cop intercedeu, mandou o bad cop entrar na viatura e continuou a conversar comigo. E me falou um monte daqueles clichês que a gente já conhece.

E disse que nada é pra sempre.

Já aprendi. E hoje, finalmente, estou bem, muito bem. Obrigado, seu guarda.

Domingo, Agosto 17, 2008

Tempus fugit

Faz pouco tempo que comecei a sentir o tempo passar. Não sei se é cedo pra isso, mas agora, aos 23 anos, noto que estou envelhecendo. Longe de ser uma síndrome de Peter Pan (favor não insinuar nenhuma relação com o Michael Jackson), acho bem-vinda essa fase. Adulto.

Antes eu percebia apenas a queda de cabelo. Hoje vejo que tem outros sinais muito mais subjetivos, como a falta de deslumbramento com as coisas que me pareciam sensacionais tempos atrás. Falando assim parece que sou blasé ou vivido demais; nenhum dos dois. Apenas não me impressiono tanto. Complicadíssimo falar isso sem soar pedante. Ao menos descobri que não sou o único a pensar assim.

Ainda ontem encontrei meu grande companheiro de faculdade. Éramos Lennon/McCartney, hoje cada um em carreira solo e, ainda bem, nenhum dois foi baleado por um louco na frente do Dakota ou qualquer outro lugar. Assim como eu, ele também envelheceu.

When I’m sixty four

Entre um gole de uísque e outro, fomos lá passando nossas vidas, com a intimidade e cumplicidade que só dois velhos amigos poderiam ter e sem vergonha de usar esse clichê. Não temos mais aquela ânsia de fazer tudo, estar em todo lugar. Estamos sossegados com o que temos e com o que somos.

O nosso tipo de conversa hoje é diferente, embora os assuntos sejam praticamente os mesmos: comentários sobre Monty Python, de como O Poderoso Chefão nos fez mais homens, sobre como a adaptação de O Processo, de Kafka, feita pelo Orson Welles é sensacional etc.

De diferente, só mesmo o papo sobre as nossas respectivas, algo inédito entre nós; tá aí uma coisa nova que nos deslumbra. E claro que vieram os inevitáveis comentários sobre TPM das namoradas. Muita coisa mudou.

Estamos envelhecendo. Já era tempo.

Cauby e eu

Tem quem ache mal-gosto ou esquisitice o fato de eu adorar freqüentar eventos ruins. Não sei bem o motivo dessa minha inclinação por programas que são normalmente descartados pelas pessoas de bom senso. Como quase todo desvio de comportamento, isso deve ter raiz num trauma de infância não resolvido. Ao menos assim posso ter uma justificativa mais ou menos plausível e me isentar de qualquer responsabilidade. Sofri abuso, aos 11 anos de idade. Os molestadores: minha mãe e Cauby Peixoto.

Sim, a palavra abuso é apenas para causar dramaticidade. Mamãe não é nenhuma pervertida. Sobre o Cauby, me falta autoridade pra dizer qualquer coisa, mas obviamente não boto a mão fogo por ele nem por ninguém. Ah, também nunca fui molestado por qualquer pessoa, fique claro.

De qualquer maneira, o primeiro evento genuinamente ruim que presenciei na vida foi um show do Cauby Peixoto, uns 12 anos atrás, época já bem distante dos dias de glória dele. Fui na marra, dizia que não queria ver “aquela bicha velha que canta Conceição”. Mas minha mãe insistiu e me arrastou até lá, garantindo que eu iria gostar do show. Talvez por algum tipo intuição materna ela desconfiasse que no futuro eu seria um grande apreciador destes espetáculos de duvidosa qualidade.

Tendo esse histórico, é claro que eu não poderia perder a apresentação do Village People mês passado, cerca de três décadas depois de eles terem sido sucesso com dois únicos hits.
Impossível que possa ser bom algo envolvendo cantores-dançarinos de meia-idade tentando parecer sensuais vestindo roupas supostamente fetichistas. Por teimosia ou desconhecimento, algumas pessoas achavam que poderia ser uma boa balada e acabaram ficando frustradas após os shows do grupo no País. Eu, pelo contrário, fiquei mais do que satisfeito.

Estou convencido de que o Village People mostrou uma das piores apresentações que verei em
toda minha vida. Será muito difícil ver novamente aquela combinação única de pessoas esquisitas, música de péssima qualidade acompanhada de coreografia desconexa e falta de empolgação do público. Não tenho capacidade para imaginar algo mais constrangedor. Definiria o show como uma versão disco de fim de Baile dos Artistas reduzida a um universo de seis senhores no auge de sua decadência. Definitivamente ruim e, por isso mesmo, maravilhoso.

Embora de vertentes bem distintas, Cauby e Village têm em comum esse inegável ar de decadência, algo deprimente que me atrai. Mas não saberia explicar exatamente o que me faz
sair de casa e ir para festas meia-boca. Simplesmente me parece uma opção razoável e honesta de diversão. Mas não me limito a experiências musicais improváveis, o meu negócio é experimentar de tudo quanto for insólito e irrelevante.

Talvez tosco seja a palavra mais apropriada para definir alguns eventos, como um seminário holístico que participei certa vez. A reunião foi realizada por um grupo chamado Fraternidade Raio de Luz, que se definia como “uma fraternidade espiritual da Terra ligada aos seres divinos cósmicos confederativos (sic)”. Só pelos organizadores já parece irresistível, não? Difícil ficar indiferente. Tanto que saí de Boa Viagem, no Recife, e peguei dois ônibus numa manhã de domingo para chegar no local do encontro, no Centro de Igarassu. Não tinha nada melhor pra fazer naquele dia mesmo.

O seminário durou umas seis horas e propiciou momentos inesquecíveis: ouvi histórias sobre criaturas subterrâneas, anjos infiltrados entre homens e alienígenas querendo dominar o planeta. E ainda fui apresentado ao fundador do grupo, um cara que dizia ter adquirido poderes extra-sensoriais após receber instruções de seres extraterrestres. É o tipo de pessoa que eu jamais conheceria em qualquer outra ocasião. Portanto, os eventos ruins cumprem também um importante papel de socialização. Ponto positivo pra mim.

O grande problema destes eventos, e talvez seja o único, é que poucas vezes encontro alguém disposto a ir comigo. Nem os melhores amigos ou minha namorada costumam topar. Não quero tornar isso um prazer solitário, gosto de poder compartilhar com mais gente. Às vezes tenho de insistir muito para convencer, mas nunca desisto. Por falta de argumento, continuo usando chavão “vamos, vai ser divertido, prometo”. Eles dificilmente se divertem como eu. Aposto que o Cauby iria gostar de sair comigo. Da próxima vez vou chamá-lo, até mesmo como retribuição pelo show que ele me proporcionou. E vou convidar Conceição também, lógico.

Sexta-feira, Maio 02, 2008

Cartas nunca entregues

O que fazer com uma carta que não vai ser entregue ao seu destinatário? Reparei nas correspondências escritas por mim e nunca enviadas. São poucas, nada absurdo, mas a simples existência delas me causa desconforto. Pedidos de desculpas, queixas, declarações apaixonadas, comentários cretinos ou dramas, todos intencionalmente extraviados.

Escrever as cartas traz alívio, sem dúvida. Mas a eficácia desse extravasamento fica comprometida quando os recados não chegam ao seu destino. Não adianta de muita coisa dizer algo que não será ouvido. Ou lido, no caso.

Hoje, revendo algumas das cartas, fico na dúvida se foi realmente melhor nunca entregá-las. Como consolo, tenho plena convicção de que outras realmente tiveram melhor destino ficando por aqui mesmo.

Estranhas lembranças estas cartas. E olha que tem coisa recente, mas parece pertencer a passado longínquo. Ou talvez eu apenas queira fazer com que pareçam coisas ultrapassadas.

Bem, como sei que não produzi nada tão interessante quanto Carta ao Pai, de Franz Kafka, decidi me livrar destes papéis. Quer dizer, deixei duas guardadas. Quem sabe ainda dá tempo e, mais importante, ainda vale a pena?

Quarta-feira, Abril 23, 2008

Bom demais.

Tenho a sensação de que ando meio retardado, porque tenho considerado tudo excessivamente positivo. Sempre achei que pessoas sorridentes demais e satisfeitas demais tinha problemas mentais. Não é normal.

Quando me perguntam se estou bem, respondo que está tudo ótimo. Sinceramente, não me recordo da última vez em que defini meu estado como ótimo. Talvez eu tivesse uns oito anos de idade e estivesse na frente da televisão vendo Tartarugas Ninja e comendo geléia de mocotó Imbasa.

Habitualmente, achava que sempre tinha algo de errado quando as coisas estavam aparentemente muito certas. Hoje, nem desconfio mais; tenho a convicção de que está tudo muito certo, até quando faço a coisa errada.

Aí me perguntam por que está “tudo ótimo”. Pareço ainda mais retardado, porque não tenho idéia clara do que há de tão bom assim. Apenas tenho achado a vida bem divertida e carrego um sorriso meio débil.

Mas se fosse permitido pedir algo mais nesse “nada demais” que tanto me satisfaz ultimamente, pediria uns probleminhas ou pequenas desgraças. Assim, de leve. Porque ser alguém alto-astral é meio chato. Um pouco de depreciação, para tornar tudo mais interessante.

Sábado, Abril 19, 2008

Voltando

Sempre achei que para ter um blogue eu teria de escrever coisas que tivessem um mínimo de relevância para quem ocasionalmente aparecesse por aqui. A função não é compartilhar minha vida pessoal; se o quisesse, escreveria tal qual um diário. E bem sem que minha vida pouco ou nada despertaria atenção de um provável leitor.

O que eu tento aqui é escrever qualquer coisa com um mínimo de significado pra você, seja um conhecido meu ou não. Causar, ao menos, um leve prazer com a leitura. Arrancar alguma lembrança, despertar afinidade ou, quem sabe, um sorriso (este último, minha reação favorita). Mas qualquer reação vale, até mesmo apatia.

Aos bem-aventurados que continuaram me visitando durante esse enorme hiato, obrigado, de verdade. Estou de volta.

Segunda-feira, Março 17, 2008

Desprazeres

Tão logo acordo e abro os olhos, vejo um gringo de quase 1,90m só de cueca. E, Deus, ele está com ereção matinal. Não merecia ver isso, por todos os meus pecados.

Fico a me perguntar por que a maioria dos alberguistas simplesmente não se troca no banheiro. Ao menos, acho que o cara podia esperar debaixo do lençol até sua ereção matinal passar. O mais pertubador é que ele vai até a varanda e fica olhando a rua. Sem acrescentar nenhuma peça de roupa. Apenas acende um cigarro, mas a fumaça não é suficiente para esconder a desagradável visão.

Aposto que se um algum dia eu me hospedar num albergue misto eu não verei mulheres em trajes sumários desfilando na minha frente.

Caligrafia


Não repare a péssima qualidade da imagem. Não tinha scanner por perto, tirei uma foto, o quarto do albergue é meio escuro e este é meu caderno de viagens do Lonely Planet.

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

Toma um cóccix!

Não aceito que cóccix seja nome de uma parte de nosso corpo. Sim, aquele ossinho no final da coluna vertebral, também conhecido pelos populares como mucumbu (aí, sim, nome apropriado).
Cóccix é palavra esquisita demais. Pra mim, deveria ser nome de remédio. Antiinflamatório. Daqueles para dor braba, em casos extremos, quando o dorflex não resolve de jeito nenhum. Eu confiaria num remédio com esse nome. Parece moderno e eficiente.

Consigo imaginar perfeitamente a situação:
- Mulher, pra tu ter idéia, a dor só passou depois que eu tomei um cóccix.
- Afe, devia tá doendo muito mesmo. Só tomo cóccix quando não estou agüentando mesmo.

Não é crível?

Cóccix seria remédio receitado. E bastante caro, não é para qualquer um.
- Ih, tô com uma dor danada! Me dá um cóccix, por favor!?
- Nunca, só tenho unzinho, nunca se sabe quando vou precisar de verdade dele.

Ninguém dá o cóccix de graça.

*Aliás, alguém sabe como é o plural de cóccix? Tudo bem que provavelmente ninguém na vida precisou se referir a mais de um, como: “ai meu Deus, olha só que coisa mais lindas esses cóccixes(?)”. Afinal, a única oportunidade de tecer um comentário desse seria numa orgia ou coisa assim e não imagino pessoas preocupadas em falar do cóccix alheio numa hora dessas. Enfim, se alguém souber, fico grato.

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

Aos senhores passageiros

Não raro se escuta alguém dizer “nossa, viajei em fulano(a)”. Coisa comum, com a escassez de pessoas interessantes, você encontra alguém um pouquinho diferente e já viaja nela. Aí mora o perigo.

Pegue seu passaporte de relacionamentos e repare em quantas dessas viagens você já embarcou. Até pessoas menos viajadas têm uma boa quantidade de páginas carimbadas. A maioria de nós é nômade no campo afetivo, poucos são os que conseguem se fixar num lugar. Afinal, parece excitante a idéia de conhecer culturas novas, costumes diferentes, entrar em contato com novas línguas e coisas assim.

Mas pense. Quantas dessas maravilhosas viagens que prometiam um roteiro empolgante e exótico não se revelaram excursões mixurucas ou, pior, eram grandes roubadas? Daquelas que você encara um serviço de bordo ruim ou tem a bagagem extraviada.

Ainda assim, continuamos viajando, sempre com a mala em mãos.

Alguns destinos não valem nem a taxa de embarque. Desconfie daquelas promoções imperdíveis que aparecem nos finais de semana. Antes de viajar em alguém, procure referências de quem já conhece o local ou se informe com um agente de viagens experiente. Discuta bem o trajeto com o piloto Coração e com a comissária de bordo Razão.

Toda atenção no check-in e, aos que se aventurarem, boa viagem.

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Que tem de bom no dia?

Acordar bem-humorado é uma anormalidade. Mesmo não achando lá muita graça em dormir, não entendo como alguém consegue sorrir após levantar da cama. Estou ficando rabugento já aos 23 anos. E, olhando direitinho no espelho agora de manhã, pareço não ter apenas 23. Tento amenizar as coisas dando um sorriso pro amigo de vidro, mas e vejo essas marcas ao redor dos olhos. Tchau sorriso. E, além do mais, estou ficando careca.

Ainda tenho a cara e os sinais da quarta-feira de cinzas: garganta inflamada, dor de cabeça e gastrite. Chá de paracetamol com mel, um buscopan e pastilha, fora os sucrilhos e torradinhas. Das mazelas, pelo menos a fome matinal passa.

Menos irritado, dou uma olhada no jornal. “Chineses rezam por proteção no Ano do Rato”. É, rezem bastante, porque um ano do RATO não pode ser coisa boa. Aliás, com os animais do zodíaco chinês fica mesmo complicado. Até anteontem era ano do porco e logo me vem a imagem do Babe, o porquinho atrapalhado. Calafrios ao lembrar da voz demoníaca daquele suíno. É, talvez o ano do rato seja menos mal.

Bem, vou escovar os dentes. Que eu fique enrugado, careca e rabugento. Mas banguela é uma barra. Nunca que vou dormir com uma dentadura boiando num copo de água na cabeceira.

Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

Seu Abílio

Seu Abílio era um homem desses que não se vê mais hoje em dia, um tipo tão raro nos anos 2000 quanto seu nome. Morreu não sei nem mais quanto tempo faz; mais de dez anos, menos de 15, creio. Eu era bem novo quando isso aconteceu e esqueci da data de sua partida, mais por não querer lembrar disso do que por displicência infantil.

O que lembro e sei é que gostava muito dele. Já o conheci velho, claro, como há de ser com todo avô. Era magro e alto, já ficando encurvado pela idade. Tinha cabelos brancos bem finos, que usava de lado. Usava uma capa preta e fumava bastante. Inesquecível aquela figura alta de sobretudo preto com o cigarro acesso naquela escuridão de cidade do interior.

Era barbeiro, mas sua barba parecia sempre estar por fazer. O beijo do avô sempre me arranhava a face, coisa que eu não gostava muito. Mas eu logo esquecia daquele ardor chato no rosto quando ele me contava uma piada. Tinha sempre uma na ponta da língua, coisa incrível, nunca se repetia.

Aliás, Abílio morreu contando uma piada que agora me esqueci. Era uma daquelas clássicas sobre a chegada de alguém no céu. E me deu uma saudade dele agora de noite, enquanto brinco com sua antiga bengala.