terça-feira, fevereiro 19, 2008

Toma um cóccix!

Não aceito que cóccix seja nome de uma parte de nosso corpo. Sim, aquele ossinho no final da coluna vertebral, também conhecido pelos populares como mucumbu (aí, sim, nome apropriado).
Cóccix é palavra esquisita demais. Pra mim, deveria ser nome de remédio. Antiinflamatório. Daqueles para dor braba, em casos extremos, quando o dorflex não resolve de jeito nenhum. Eu confiaria num remédio com esse nome. Parece moderno e eficiente.

Consigo imaginar perfeitamente a situação:
- Mulher, pra tu ter idéia, a dor só passou depois que eu tomei um cóccix.
- Afe, devia tá doendo muito mesmo. Só tomo cóccix quando não estou agüentando mesmo.

Não é crível?

Cóccix seria remédio receitado. E bastante caro, não é para qualquer um.
- Ih, tô com uma dor danada! Me dá um cóccix, por favor!?
- Nunca, só tenho unzinho, nunca se sabe quando vou precisar de verdade dele.

Ninguém dá o cóccix de graça.

*Aliás, alguém sabe como é o plural de cóccix? Tudo bem que provavelmente ninguém na vida precisou se referir a mais de um, como: “ai meu Deus, olha só que coisa mais lindas esses cóccixes(?)”. Afinal, a única oportunidade de tecer um comentário desse seria numa orgia ou coisa assim e não imagino pessoas preocupadas em falar do cóccix alheio numa hora dessas. Enfim, se alguém souber, fico grato.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Aos senhores passageiros

Não raro se escuta alguém dizer “nossa, viajei em fulano(a)”. Coisa comum, com a escassez de pessoas interessantes, você encontra alguém um pouquinho diferente e já viaja nela. Aí mora o perigo.

Pegue seu passaporte de relacionamentos e repare em quantas dessas viagens você já embarcou. Até pessoas menos viajadas têm uma boa quantidade de páginas carimbadas. A maioria de nós é nômade no campo afetivo, poucos são os que conseguem se fixar num lugar. Afinal, parece excitante a idéia de conhecer culturas novas, costumes diferentes, entrar em contato com novas línguas e coisas assim.

Mas pense. Quantas dessas maravilhosas viagens que prometiam um roteiro empolgante e exótico não se revelaram excursões mixurucas ou, pior, eram grandes roubadas? Daquelas que você encara um serviço de bordo ruim ou tem a bagagem extraviada.

Ainda assim, continuamos viajando, sempre com a mala em mãos.

Alguns destinos não valem nem a taxa de embarque. Desconfie daquelas promoções imperdíveis que aparecem nos finais de semana. Antes de viajar em alguém, procure referências de quem já conhece o local ou se informe com um agente de viagens experiente. Discuta bem o trajeto com o piloto Coração e com a comissária de bordo Razão.

Toda atenção no check-in e, aos que se aventurarem, boa viagem.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Que tem de bom no dia?

Acordar bem-humorado é uma anormalidade. Mesmo não achando lá muita graça em dormir, não entendo como alguém consegue sorrir após levantar da cama. Estou ficando rabugento já aos 23 anos. E, olhando direitinho no espelho agora de manhã, pareço não ter apenas 23. Tento amenizar as coisas dando um sorriso pro amigo de vidro, mas e vejo essas marcas ao redor dos olhos. Tchau sorriso. E, além do mais, estou ficando careca.

Ainda tenho a cara e os sinais da quarta-feira de cinzas: garganta inflamada, dor de cabeça e gastrite. Chá de paracetamol com mel, um buscopan e pastilha, fora os sucrilhos e torradinhas. Das mazelas, pelo menos a fome matinal passa.

Menos irritado, dou uma olhada no jornal. “Chineses rezam por proteção no Ano do Rato”. É, rezem bastante, porque um ano do RATO não pode ser coisa boa. Aliás, com os animais do zodíaco chinês fica mesmo complicado. Até anteontem era ano do porco e logo me vem a imagem do Babe, o porquinho atrapalhado. Calafrios ao lembrar da voz demoníaca daquele suíno. É, talvez o ano do rato seja menos mal.

Bem, vou escovar os dentes. Que eu fique enrugado, careca e rabugento. Mas banguela é uma barra. Nunca que vou dormir com uma dentadura boiando num copo de água na cabeceira.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Seu Abílio

Seu Abílio era um homem desses que não se vê mais hoje em dia, um tipo tão raro nos anos 2000 quanto seu nome. Morreu não sei nem mais quanto tempo faz; mais de dez anos, menos de 15, creio. Eu era bem novo quando isso aconteceu e esqueci da data de sua partida, mais por não querer lembrar disso do que por displicência infantil.

O que lembro e sei é que gostava muito dele. Já o conheci velho, claro, como há de ser com todo avô. Era magro e alto, já ficando encurvado pela idade. Tinha cabelos brancos bem finos, que usava de lado. Usava uma capa preta e fumava bastante. Inesquecível aquela figura alta de sobretudo preto com o cigarro acesso naquela escuridão de cidade do interior.

Era barbeiro, mas sua barba parecia sempre estar por fazer. O beijo do avô sempre me arranhava a face, coisa que eu não gostava muito. Mas eu logo esquecia daquele ardor chato no rosto quando ele me contava uma piada. Tinha sempre uma na ponta da língua, coisa incrível, nunca se repetia.

Aliás, Abílio morreu contando uma piada que agora me esqueci. Era uma daquelas clássicas sobre a chegada de alguém no céu. E me deu uma saudade dele agora de noite, enquanto brinco com sua antiga bengala.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Pra não esquecer

Pelo menos uma vez por semana encontro a vizinha do andar de baixo no térreo do prédio. “Nunca mais lhe vi”, me diz a senhorinha, sempre, mesmo que tenha me visto no dia anterior. Ela tem Alzheimer.

Às vezes ela pergunta do trabalho no jornal (que não tenho mais) e de algumas outras coisas as quais também não mais tenho. Uma vez expliquei superficialmente que o tudo sobre o qual ela perguntava tinha virado nada. Tempos difíceis.

Mas não adianta, ela não lembra das minhas observações e volta a me perguntar. E a dizer que nunca mais me viu. Entro no clima e digo “é verdade, tenho trabalhado muito, por isso quase não nos vemos” ou “sim, está tudo bem”.

Causava certo desconforto esses diálogos. Mas pensando bem agora, ela tem memória das melhores coisas que eu vivia até há pouco. Qual a razão de tentar explicar o hoje que anda tão insosso?Era bom. Melhor deixar ela com essas lembranças sobre mim, muito mais interessantes.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Folia maldita

Pessoa atípica (e antipática também) que sou, nunca gostei de carnaval, cerveja e futebol, grandes preferências nacionais. Não sei bem se realmente sou pouco afeito a essas coisas ou se o abuso surgiu de uma tentativa de querer ser alguém diferente; se simula tanta coisa no decorrer do tempo que às vezes torna-se difícil saber o que é ou não da nossa natureza.

Mas acho que não gosto mesmo do carnaval, embora nos últimos anos venha empreendendo esforços para ser mais sociável no período. É difícil.

Socializar-se no carnaval não significa apenas sair de casa, inclui atitudes como:

- achar divertido aquele roça-roça em ladeiras lotadas, num sol escaldante.
- esboçar sorrisos para as pessoas.
- não me chatear com o cara que inevitavelmente vai derramar cerveja em mim.
- desviar das periguetes que se jogam.
- relevar o fedor de urina nas ruas.
- não linchar o guri que joga água suja e gelada na minha cabeça.
- escutar Vassourinhas a cada esquina.
- aturar as apalpadas e cutucões (sobretudo as praticadas por seres do gênero masculino).
- suportar os saradões descamisados (e, quase sempre, suados).
- etc.

Carnaval é mais uma prova da capacidade do humano superar as adversidades, mais especificamente, sua capacidade de se divertir com elas. Continua não me parecendo um momento propício para a diversão. Vai entender.

terça-feira, janeiro 15, 2008

Recesso

O autor encontra-se de férias no balneário de Angra dos Reis, como todo emergente de novela das oito.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Tempo, tempo.

É batata. Chega dezembro e começo a escutar pessoas falando que o ano foi péssimo, dos piores vividos por eles. Quase sempre, a queixa é seguida de um “espero que o próximo ano seja melhor”. Tenho a impressão de que todos os anos têm sido horríveis e estão piorando gradativamente. Quase ninguém diz que o ano foi maravilhoso ou divertido. Ainda assim, acreditam em dias melhores.

Mas não é a virada da folhinha que vai mudar a vida de ninguém. Não vai melhorar.

Há quem diga que sou amargo e pessimista, que falo coisas assim por ressentimento. Sim, posso ser tudo isso, mas não é razão para descrença num futuro próspero. Nem muito menos recorrerei ao chavão “sou realista”. Nada disso.

Não estamos acostumados a lidar com o que nos desagrada. Passam-se os anos e nossas pequenas tragédias diárias, dramas e aflições aumentam em número e intensidade. E mesmo com essa eterna repetição de mazelas, gente continua torcendo para que as coisas melhorem. É irreal.

Supostamente, tenho mil motivos para reclamar de 2007. Nunca vivi em tão pouco tempo essa combinação de perdas, desentendimentos, tristezas e frustrações que experimentei recentemente, sobretudo no último semestre. Tive momentos bem ruins, devo ter chorado o suficiente para encher uma cisterna.

Isso é a vida. Feia e instável. Com o tempo e um jeitinho, você começa a gosta dela. Não adianta reclamar, ela não muda. É como aquelas pessoas que não tomam jeito, por mais que reclamemos de seus defeitos. Alguém tem de ceder. Eu cedi. E estamos muito bem, obrigado. Reparo bem mais nas coisas boas acontecendo ao redor.

Próximo ano vai ser pior. Mas isso não quer dizer que será ruim.

Para quem acredita em calendário, feliz ano-novo. Até 2008.

sábado, dezembro 22, 2007

Mensagem recebida

Já há um bocado de tempo as companhias de telefonia móvel lideram o ranking de reclamações do Procon. Serviços ruins, cobranças indevidas e demora na resolução de problemas são as principais queixas. É tudo verdade, mas o pior mesmo são as mensagens de propaganda que chegam direto.

Por mais que a experiência me mostre o contrário, sempre acho que aquele barulhinho feito pelo telefone celular é pra me alertar o recebimento de uma mensagem escrita por um humano, exclusivamente para mim. Tuuu, toca o aparelho e vou correndo para ver quem me escreve. Decepção: “Clientes TIM tem mais vantagens na Pizza Hut! Ligando do seu TIM, vc compra uma Cheesy Pop via delivery (4003-3043) e ganha uma pizza media. Valido de seg. a sexta”. Nem pra escrever a palavra “você” por inteiro eles se dão ao trabalho. Acentuação, nem se fala.

Sexta-feira à noite, chega uma mensagem. Convite para sair? Não, uma promoção “imperdível” para ganhar 25 minutos grátis, por mês, em ligações.

O Procon aceita reclamações por conta das falsas expectativas que a TIM provoca em mim quase que diariamente? Mereço uma indenização milionária.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Corrente.

Agora eu não me sinto mais um excluído da blogosfera. André, do Cataclisma14, me incluiu numa corrente de blogues e pediu para eu citar cinco coisas que eu sei fazer e todo mundo também sabe. Vou quebrar a corrente porque acho que passaria vexame por não ser muito entrosado com a tuma dos blogues.

Ah, já sei. Vou convidar José Dirceu, Marcelo Tas, Bruna Surfistinha, Neil Gaiman e Fernando Meirelles para darem seus pitacos. Se passarem por aqui, estão intimados.

Cinco coisas que eu sei fazer e todo mundo também sabe:

1 – Ser roubado – É difícil passar ileso. Uma hora, alguém vai te assaltar Eu mesmo já fui assaltado mais de dez vezes, sendo que em determinado ano foram seis ocorrências. Já levaram de tudo: celular, carteira, mochila, camisa e boné (num tempo imemoriável quando se usavam bonés de times de basquete americano). Certa vez um ladrão teve a maldade de levar meu lanche que consistia num Toddynho e um pacote de Rufles. Pura maldade.

2 – Ser tapeado por vendedores – Variação da primeira habilidade, mas não envolve violência física, apenas a lábia. Vendedores são seus inimigos, por mais que eles tentem ser simpáticos. Fazem promoções do tipo “um é R$ 2 e dois é R$ 4” e você acaba pensando que fez bom negócio. E não, aquela camisa não ficou uma maravilha em você.

3 – Ovos mexidos – Qualquer um, de dementes a portadores de Mal de Parkinson, sabe fazer ovos mexidos, esta grande maravilha da gastronomia. Sem este insubstituível talento, as férias em casas de praia seriam muito mais complicadas. Ovo mexido pra comer com pão no café da manhã, pra dar sustância ao Miojo no almoço e novamente pra colocar no pão durante o jantar (isso se ainda houver pão).

4 – Insultar – É verdade que as formas mais simples de ofensa são acessíveis a todos, mas para realizar esta atividade de forma competente é necessária uma boa dose de criatividade e sofisticação. Quem é chamado um dia de filho da puta esquece logo. Mas experimente xingar o mesmo de filho de genitora promíscua. Ele dificilmente esquecerá e, quem sabe, até terá orgulho.

5 - Lamentar-se – “Eu não deveria ter gastando tanto com uma samba-canção de seda” ou “nunca que eu deveria ter dado para ele” são pensamentos que, respectivamente (ou não) assolam homens e mulheres. A impossibilidade de corrigir feitos pouco louváveis resulta sempre em lamúria. Não há como escapar. Até hoje eu me lamento por coisas feitas muitos anos atrás, como ter ido ver Casamento Grego no cinema, definitivamente, o pior filme da história da humanidade.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Boca em obras

Certos procedimentos odontológicos deveriam ser feitos com anestesia geral. Não tanto pela dor, mas pelo incômodo que causam. Fui ao dentista para tratar uma cárie num dente lá do fundão da boca. Após duas injeções de anestesia local, nem sente direito a moça cutucando as coisas. Ela poderia rasgar minha bochecha que eu só sentiria depois que o sangue escorresse até o meu pescoço.

É, a anestesia funciona. Mas que coisa desagradável é aquela furadeira de dentista. Faz um barulho repetitivo, parece uma reforma acontecendo dentro da boca. E reforma é sempre uma coisa chata: faz sujeira e atrapalha o funcionamento das coisas. Claro que dentistas costumam ser mais delicados e rápidos que pedreiros, mas ainda assim causam transtornos. E, o pior, dentro de você.

Com o passar dos minutos se sente cada vez mais o inchaço na metade do rosto onde o dente está localizado. Me sinto como um baiacu inflado parcialmente. Não é bonito.

Adoraria que me dessem uma anestesia geral. Dormir sem me incomodar com o barulho, os dedos passeando pela minha boca ou com meia face inchada. Porque nada pior do que sair do dentista falando com a língua mole e jeitinho de quem acabou de ter um derrame e perdeu metade dos movimentos faciais.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Risadinha é que era mulher de verdade

“Namora comigo?” (e suas inúmeras variações) é um dos pedidos mais estranhos que alguém pode ouvir. É razoável perguntar “posso te ver amanhã?” e coisas do tipo. E depois de vários amanhãs, creio que as pessoas estão namorando. Pessoas saudáveis, acredito, se juntam, simplesmente, sem formalidade.

Algo está fora dos eixos num relacionamento quando um pedido de namoro é dito ou tem de ser feito. Sobretudo quando em menos de três semanas se recebe dois pedidos de namoro de pessoas distintas. Algo REALMENTE está muito errado. E não tem nada a ver com feromônios.

Da última vez que alguém havia me pedido em namoro eu estava no terceiro ano do colégio. Esqueci o nome dela, mas eu a apelidei secretamente de Risadinha. Ela era mórmon e andava sempre com um sorriso entre o demente e histérico, uma feição que cairia bem tanto num assassino sádico quanto num drogado cheio de ácido.

Pois uma tarde Risadinha me abordou e se apresentou pra mim. Era assustador. Por vários dias seguidos ela ficou do lado de fora da sala de aula esperando que eu saísse para o recreio. Sem escapatória, ouvia histórias de aparições de Jesus e comentários simpáticos sobre mim. E ela dizendo isso com o olhar fixo e seu sorriso retardado.Uma maneira bem bizarra de flertar.

Até que, após 15 dias de conversas que eram quase monólogos dela, Risadinha me pediu em namoro. Deus, eu teria ficado menos assustado se a Virgem Maria aparecesse na coxinha que eu estava comendo na hora. Gaguejei algumas palavras fugi junto com o som do sinal que anunciava do fim do recreio.

Depois Risadinha nunca mais falou comigo. Mas fez o mesmo tipo de abordagem com um conhecido meu, que também não topou o relacionamento.

Hoje, as Risadinhas são outras. Mulheres mais velhas, supostamente maduras e sãs. Mas, no fim das contas, não mudam muito o resultado final. Continua tudo pouquíssimo sofisticado. Só é mais difícil reconhecer o estado de perturbação mental, porque elas não têm trejeitos de maníacos e sabem esconder bem suas neuroses. Risadinha, que saudade. Você era mais sincera e descomplicada.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Síndrome de Regina Duarte

Não sei por que a humanidade tem tanto medo de tudo. Medo de morrer, de se apaixonar ou de ficar só são alguns dos temores mais típicos. Gente excêntrica pode tornar as coisas um tanto sofisticadas, como a Regina Duarte que tinha (talvez ainda tenha) medo do Lula. Particularmente, considero a Malu Mulher mais medonha que o barbudo, mas vá lá. Afinal, o inconsciente humano é inconsciente mesmo.

Na sociedade cristã ocidental (pareço sofisticado falando assim, não?), essa insegurança já começa na infância, quando se deixa de aproveitar certas brincadeiras por medo de que o Papai do Céu castigue. Coisa infundada, porque não me lembro de nenhum amigo mais travesso que tenha sofrido com alguma praga de gafanhotos ou a morte do primogênito. Este último seria ainda mais remoto, principalmente porque o sexo entre crianças era coisa bem pouco em voga na minha geração. Hoje, qualquer criança de oito anos provavelmente tem uma vida sexual mais ativa e animada que a minha.

Já no Oriente Médio, Alá e Deus até aprovam as brincadeiras mais pesadas, possibilitando às crianças judias e israelenses uma infância mais saudável. O coleguinha judeu roubou suas figurinhas no jogo do bafo? Massacre o vilarejo dele e ainda sonhe com a promessa de 72 virgens no céu! Essas crianças, sim, viram adultos sem medo quando conseguem ultrapassar a puberdade intactos a todos os atentados à sua vida.

Agora, na lira dos 20 anos, uma das coisas que mais ouço é “tenho medo”. Dói nos nervos essa geração de frouxos com medo de sentir qualquer coisa que seja simplesmente sentir. Um amigo pensa em terminar um namoro com medo de gostar de verdade de seu namorado. Outra me diz que não quer começar um relacionamento pelo mesmo pavor: gostar, amar, sei lá.

Medo de gostar? Me explica. Acho perfeitamente razoável que se tenha medo de coisas como uma punção lombar, músicas da Björk, Receita Federal ou filmes eróticos com pessoas besuntadas. Mas se preocupar em não se apegar a alguém pelo temor de que essa pessoa um dia pode sumir da sua vida é estranho e antinatural. Tudo tem um ponto final. Pra que temer?

Dizem que isso é ser racional. Parece-me estúpido, isso sim.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Lacuna

Vivo, por ora, um estado de não plenitude das coisas. Não é insatisfação com o que me é disponível, mas um estranhamento pela ausência de quem já foi tão presente em minha vida.

Os últimos cinco anos foram os que mais surgiram e sumiram pessoas da minha vida: amor e amizades, ambos na forma mais intensa e apaixonada. E quase todos desapareceram.

Vez ou outra nos esbarramos e é sempre o mesmo: olhares estranhos, desvio de caminhos ou indiferença, simplesmente. A reação mais eloqüente que obtemos desse encontro é talvez um sorriso com câimbra.

Às vezes, de uma tentativa sincera de reaproximação acontece um abraço, mas os braços parecem não mais saber se enlaçar. Desconfortável. E triste.

Parece que as pessoas morrem não da forma literal, mas de maneira metafórica, coisa muito mais desagradável. Acostumar com a idéia de que elas não estão mais ali nem em qualquer lugar é bem ruim. Sobretudo porque não é possível acostumar-se.

terça-feira, outubro 23, 2007

[ ]

Viver é surreal
Morrer
é realidade de vida
acalentada pelo instante
indecifrável da alma
que vagueia, desnorteia-se
e por estar perdida
encontra-se na dor, na busca.

(Orismar)

quinta-feira, setembro 27, 2007

Rambo, o futuro e todo o resto


Sabe quando você precisa de uma observação bem feita para conseguir refletir sobre o estado das coisas? Aquelas palavras que fazem você notar o quanto a situação está realmente crítica. É algo como quando lhe avisam, “ei, seu zíper está aberto” e você sente que tem de fazer algo a respeito.

Ultimamente, muitos me falam para não ficar parado e procurar logo um emprego ou coisa que valha. É, eu sei. Mas também sei que preciso descansar um pouco. Só que agora parece que chegou o momento decisivo.

Vendo num site as fotos do novo filme do Rambo, comentei com uma amiga minha a decadência do Sylvester Stallone. “Tas precisando muito de uma ocupação!”, é a resposta que eu tenho dela.

Um comentário muito simples e pertinente. E parei para refletir: o que me leva a gastar tempo lendo sobre o novo filme do Rambo? Eu nem gosto dele. Será um sinal de que minha vida está perdendo o sentido? Ver fotos do Stallone velho e gordo empunhando uma metralhadora?!

Foi quase uma revelação mística. O Rambo está lá na selva, detonando terroristas, é uma ocupação. Preciso arrumar algo, logo.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Corro.

Certas horas, parece necessário fugir, mesmo sem saber de que, mesmo sem saber pra onde. Deve ser algum lampejo do meu débil instinto de sobrevivência. Mas, como fugir?

Enquanto não descubro como, venho utilizando uma alegoria para a fuga: correr, literalmente. Tem funcionado.

Sinto certo desespero ao correr, mas também dá reconforto; difícil explicar. E, correndo no calçadão da praia, tenho a impressão de que não sou o único correndo sem a preocupação mais óbvia de ficar em forma.

No trajeto sempre encontro um ou dois sujeitos que também parecem fugir de algo. Nos identificamos, de alguma forma. É um olhar diferente, não é resultado da respiração ofegante ou cansaço. Está lá antes e depois da corrida. Pelo menos nesses tempos. Também tenho esse olhar.

Pode ser pura perturbação da minha cabeça, mas posso jurar que trocamos mensagens naquela fração de segundos em que cruzamos, sempre em direções opostas. A mensagem? Não sei bem, difícil decifrar. Mas, naquele instante, nos sentimos menos sós.

Depois daquele rápido sorriso e cumprimentos implícitos, volto a correr. As pernas doem com o esforço, os músculos da panturrilha ficam rígidos, mas não paro. Corro, corro, não sei de que, não sei pra onde.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Reminiscências aleatórias (e vergonhosas)

Aproveitando os atuais momentos de ócio, passo um bom tempo revirando minhas tralhas, memórias e afins. Hoje me deparei com meu primeiro release. E não foi feito por mim, mas SOBRE mim:

“Breno é um garoto de sete anos e, apesar da pouca idade, apresenta-se com um talento promissor. É fotogênico e, além do mais, um showman nas passarelas quando desfila como manequim mirim...” (Showman??? Uau!)

“Charmoso, sendo uma criança meiga e carinho, Breninho, como é conhecido no Colégio Atual, está cursando a 1ª série, sendo um aluno que participa dos movimentos culturais do colégio.” (Ninguém nunca me chamou de Breninho no colégio e as únicas atividades supostamente culturais daquela época, das quais não participei, foram uns shows de Asa de Águia e Netinho.)

“Entre compromissos com o colégio, desfile e cursos, o Breninho reserva um tempinho com seus coleguinhas para uma boa peladinha e torcer pelo seu time do coração, o Sport Clube do Recife.” (Menino de ouro, não?)

O passado é assustador. Comecei a lembrar dos desfiles para grifes infantis como a Xixi Baby (pensando hoje, que nome bizarro). Foi uma carreira curta, ainda bem. Modelo mirim? Nunca façam isso com seu filho.

Em tempo: não fui molestado por ninguém no período.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Freud

O rito é conhecido e respeitado por nós dois. Devo ocupar sempre o lado esquerdo da cama, encostado na parede, para que ele se aninhe do lado direito. Acontece todas há noites, há um bocado de tempo. De início, eu não achava tão confortável essa divisão injusta, afinal sou bem maior que ele e mereço mais que a metade do colchão. Atualmente, sinto falta quando ele não está do lado. Mesmo que ele quase sempre me acorde enquanto sobe na cama e eu leve muito tempo para conseguir dormir novamente.

Hoje meu companheiro noturno completa 12 anos de idade. Freud, meu cachorro está velho. Sua cabeleira preta apresenta um bocado de pêlos brancos, os olhos não enxergam mais e seu caminhar tornou-se mais lento. Mas, pelo menos pra mim, ele conserva muito do jeitinho de filhote de quando eu o ganhei. Não sei explicar. Talvez seja por conta de suas manias jamais abandonadas, como pedir por minhas meias sempre que chego em casa.

Inclusive eu estou condicionado: quando não me escuta abrir a porta, vou até ele e entrego as meias. Uma diversão fugaz antes dos pares irem para a máquina de lavar.


Focinho gelado, muitos pêlos nas roupas, lambidas inesperadas, bagunça debaixo da cama e ração esparramada pelo chão. Incrível como eu às vezes não me dou conta da alegria que essas coisas me trazem.

quarta-feira, setembro 05, 2007

No mundo a passeio

Estou retornando um hábito há muito não praticado, caminhar pela cidade. Assim, sem destino – com uma mochila nas costas, garrafa de água, chocolate, livros, música e outras coisas – tenho tentado ocupar meu dia.

Desde segunda-feira eu não trabalho. Por questões que até agora ninguém soube explicar bem, meu contrato ainda não foi fechado. Coisas de Recursos Humanos: existe a vaga, mas alguma complicação bizarra está embaçando a formalização do papel. Ou tudo dará errado e ficarei, oficialmente, desempregado. Enquanto isso, fico de molho.

Por mais incômoda que seja a incerteza do meu emprego, os dias têm sido relativamente agradáveis. Digo relativamente porque os problemas atuais vão muito além da carteira de trabalho.

Após mais de quatro anos de faculdades, estágios e afins, é realmente bom ter uma quarta-feira livre. Não tiro férias de tudo desde o dia 2 de abril de 2004. Andar por aí pode parecer o passatempo mais idiota e insosso do mundo, mas não é. Dá pra pensar sobre todos os meus problemas e também parar de pensar sobre eles enquanto converso com algum amigo que encontro ao acaso.

E, uma das melhores coisas: posso usar aquela camisa surrada dos Beatles, que veste melhor do que qualquer roupa do mundo, mas é inadequada para o trabalho.

É disso que eu preciso agora: sentir-me confortável. Nem que seja pelo simples fato de usar uma camisa amaciada pelos anos e poder caminhar sem pressa, pra lugar algum.