Uma amiga diz ser incapaz de gostar daquilo que ela não entende, incluindo aí coisas e pessoas. É um posicionamento compreensível mas que, ainda bem, não compactuo. Isso porque implicaria não gostar de muitas coisas e, consequentemente, não gostar de mulheres, que são pra mim a coisa mais enigmática do mundo.
Sim, existem coisas impossíveis de apreciação pelo fato de serem incompreensíveis, como os filmes de Godard e parte significativa da produção de arte contemporânea.
Mulheres, por outro lado, são interessantes e divertidas, apesar de, em igual medida, serem capazes de me causar confusão mental e perda da dignidade.
Não gosto particularmente de desafios ou enigmas a serem solucionados, logo, não é a dificuldade de entender cabeça feminina o que me atrai. Gasto significativo tempo da minha vida tentando entender mulheres, sem sucesso.
Para efeito de comparação: hoje utilizei uma calculadora da revista Time que estimou em 86 dias o meu tempo gasto no Facebook desde 2009, considerando um modesto uso diário de 70 minutos.
Bem, estou com 29 anos e, desconsiderando as paixões dos tempos do colégio, digamos que eu tente entender mulheres desde minha adolescência, aos 14 ou 15 anos. Tenho certeza que, diariamente, gasto mais tempo da vida tentando entender mulheres do que navegando no Facebook. Quanto tempo se foi nisso? Uns dois ou três anos? Não duvido.
Não quero a resposta para as questões supostamente fundamentais; não importa de onde vim, quem sou ou para onde vou. Não tem utilidade. Quero coisas mais simples: entender a mulher-confusa-que-diz-que-quer-você-mas-acha-que-não-quer, aquela menina me chama pra sair mas sempre desmarca ou a guria charmosa que conheci no bar dia desses.
Ao lado da morte, coloco como outra certeza da vida a impossibilidade de compreender a cabeça das mulheres. Estatisticamente, acredito ter mais chances de me tornar um milionário ou de viajar ao espaço.
Parece que gostar de mulher é como achar boa determinada música num idioma desconhecido. Você não sabe do que a letra trata mas mesmo assim consegue aproveitar. Mulheres fazem justamente isso, levam você a se mexer num ritmo diferente por uma razão completamente subjetiva.
quarta-feira, janeiro 29, 2014
domingo, junho 02, 2013
Não quero que enfiem uma sonda no meu pau
“É cálculo renal”, disse a médica da emergência, trazendo na
mão a tomografia que fiz logo após tomar uma dose forte de analgésicos para
aliviar a dor que eu sentia em algum lugar próximo ao meu rim esquerdo. “E a
pedrinha está a sete centímetros da sua bexiga”, completou ela, embora isso não
me diga muita coisa. Não faço ideia do que esses centímetros representam para
uma bolota de seis milímetros passeando pelo meu ureter.
Considerando que já se passaram cerca de 24 horas e nada
mudou, sou levado a crer que essa pedra se desloca mais lentamente do que uma
senhorinha de 97 anos caminhando sem pressa.
Sempre tive medo de cálculo renal, pelas histórias que
contam e aquele papo de que a dor é semelhando à do parto, embora eu ainda
desconfie que uma criança saindo pela vagina de alguém seja algo mais agressivo
do que uma pedrinha de milímetros saindo pelo meu pau. Jamais saberei. Se já me
parece improvável que eu vá engravidar uma mulher, é mais remota ainda a
possibilidade de eu engravidar (e espero sinceramente que não aconteça).
Segundo o urologista que me atendeu hoje de amanhã, tenho
duas opções: me operar logo ou esperar mais um tempo para ver se a pedra sai de
maneira não tão sofrível. Optei por aguardar mais uns dias e lidar com a dor,
porque qualquer coisa que não seja uma sonda entrando pela minha uretra me
parece bem mais razoável.
Aliás, esqueci de perguntar pro urologista: a anestesia é
local?
sexta-feira, março 15, 2013
O mistério da fé
Sendo ateu e tendo poucos amigos que casam no religioso, pisar no solo sagrado de uma igreja é coisa bem rara. Por motivos que não vêm ao caso, acabei assistindo a minha primeira missa em muitos anos.
A cerimônia começa como espécie de programa de auditório; uma senhora de saia azul celeste (tonalidade bastante adequada para o local) e óculos de aro grosso faz um breve cântico ininteligível e anuncia o nome do padre, o que causa em mim uma moderada vontade de bater palmas.
O padre é um tipo que faz você esquecer tudo que já foi dito sobre renovação carismática da igreja católica. Sua inexpressividade facial e fala modorrenta, aliada ao sotaque terrível de origem indefinida e má dicção, tornam a missa bastante entediante e, na maior parte, incompreensível.
A única coisa aparentemente eloquente era a mão esquerda dele, que tremia o tempo todo, indicando Parkinson ou apenas emoção (este segundo parece improvável já que a vida parecia há muito ter saído daquele corpo). O padre também usava um tênis esportivo preto, aparentemente para corridas, embora não parecesse do tipo que se exercita, e um relógio digital com pulseira de borracha. Não sei porque cito isso, mas pareceram acessórios estranhos, embora reconheça que seriam estranhos em qualquer humano com senso de estética.
“Cólera”, “extermínio”, “bezerro de metal fundido” e “Israel” foram algumas das parcas expressões ditas pelo padre que conseguir assimilar. Por sorte, continua em voga nas igrejas aquela rotina de sentar e levantar algumas vezes durante a missa, o que acaba virando uma espécie de jogo de adivinha sobre quando será a próxima vez de se movimentar. Em tempo: me levantei quatro vezes ao longo de cerca de 40 minutos.
A missa termina com a distribuição das hóstias (quase certeza que há um termo pra isso), entregues ao padre pela senhorinha mestre de cerimônias, que atua nos outros momentos como assistente de palco ou roadie sagrada. As bolachinhas ficam guardadas numa espécie de baleiro guardado armazenado numa portinhola dourada atrás do altar, uma dispensa sagrada onde se armazenam também água benta e vinho, pelo que vi.
Penso se há alguma forma respeitosa de ir para a fila da hóstia, apenas para relembrar o sabor dela, mas desisti diante da possibilidade de ter algum ingrediente de origem animal na receita.
Encerrado o momento das hóstias, o padre se retira e várias senhorinhas se põem a cantar. Fico feliz por não ter colocado dinheiro no cestinho da paróquia.
A cerimônia começa como espécie de programa de auditório; uma senhora de saia azul celeste (tonalidade bastante adequada para o local) e óculos de aro grosso faz um breve cântico ininteligível e anuncia o nome do padre, o que causa em mim uma moderada vontade de bater palmas.
O padre é um tipo que faz você esquecer tudo que já foi dito sobre renovação carismática da igreja católica. Sua inexpressividade facial e fala modorrenta, aliada ao sotaque terrível de origem indefinida e má dicção, tornam a missa bastante entediante e, na maior parte, incompreensível.
A única coisa aparentemente eloquente era a mão esquerda dele, que tremia o tempo todo, indicando Parkinson ou apenas emoção (este segundo parece improvável já que a vida parecia há muito ter saído daquele corpo). O padre também usava um tênis esportivo preto, aparentemente para corridas, embora não parecesse do tipo que se exercita, e um relógio digital com pulseira de borracha. Não sei porque cito isso, mas pareceram acessórios estranhos, embora reconheça que seriam estranhos em qualquer humano com senso de estética.
“Cólera”, “extermínio”, “bezerro de metal fundido” e “Israel” foram algumas das parcas expressões ditas pelo padre que conseguir assimilar. Por sorte, continua em voga nas igrejas aquela rotina de sentar e levantar algumas vezes durante a missa, o que acaba virando uma espécie de jogo de adivinha sobre quando será a próxima vez de se movimentar. Em tempo: me levantei quatro vezes ao longo de cerca de 40 minutos.
A missa termina com a distribuição das hóstias (quase certeza que há um termo pra isso), entregues ao padre pela senhorinha mestre de cerimônias, que atua nos outros momentos como assistente de palco ou roadie sagrada. As bolachinhas ficam guardadas numa espécie de baleiro guardado armazenado numa portinhola dourada atrás do altar, uma dispensa sagrada onde se armazenam também água benta e vinho, pelo que vi.
Penso se há alguma forma respeitosa de ir para a fila da hóstia, apenas para relembrar o sabor dela, mas desisti diante da possibilidade de ter algum ingrediente de origem animal na receita.
Encerrado o momento das hóstias, o padre se retira e várias senhorinhas se põem a cantar. Fico feliz por não ter colocado dinheiro no cestinho da paróquia.
sexta-feira, março 08, 2013
Esse cara (transpirando no ônibus) sou eu
Me sinto uma senhora gorda no ápice da menopausa sempre que pego ônibus para ir pro trabalho. Um surto de calor acompanhado de irritação e desejo suicida invade o meu corpo logo após passar da catraca, fazendo do pequeno trajeto uma experiência suarenta de quase morte.
Sei que tem gente que passa horas em ônibus e à primeira vista pareço privilegiado por gastar no máximo uns vinte minutos de viagem, mas minha dor também tem razão de ser. Afinal, mesmo que por um tempo menor, encaro aperto, calor, sovacos horrendos expostos de maneira quase pornográfica, vômito de criança e evangélicos vendedores de canetas que agradecem a Jesus pela glória alcançada (abandono das drogas, geralmente crack) etc.
Música desagradável também é uma constante nas viagens. Alguns ônibus contam com sistema de som, muitas vezes sintonizados em rádios evangélicas (novamente eles), cujos cânticos de louvor e pregação reforçando o aspecto de penitência que é estar naquele lugar horrível. Igualmente incômodos são os passageiros que usam os alto-falantes dos celulares no máximo, geralmente tocando funk ou algum gênero inclassificável com temática sexual, sobretudo sobre “novinhas” (sendo justo, há também canções a respeito de pessoas que supostamente atingiram a maioridade) e bregas sobre questões semelhantes. Menção honrosa para os músicos amadores dos coletivos, cujo repertório é geralmente uma versão triste dos piores momentos da programação Nova Brasil FM.
Hoje o sistema de som do ônibus estava sintonizado numa rádio comum e tocava Esse Cara Sou Eu. Uma senhora do meu lado comentou que “esse cara assim não existe” e perguntou se eu concordava com afirmativa dela. Eu não soube responder, mas acho que ela esperava que eu respondesse que esse cara sou eu.
terça-feira, março 05, 2013
A ameaça nuclear de uma mulher
Não sei o que dizer para uma mulher com quem eu desejo ter
relação carnal casual sem fins reprodutivos ou tenho interesse amoroso, seja desconhecida, recém-conhecida
ou alguém que já estou de olho há tempos. Já perto de completar três décadas de
vida, continuo tão hábil quanto era na época que comprei minha primeira revista
Playboy (Maitê Proença, agosto de 1996, saudades).
Encaro a abordagem a uma mulher como algo muito sério, difícil e delicado, como as relações entre os EUA e a Coreia do Norte. Parece que qualquer erro no flerte/negociação vai desencadear não apenas o meu fim, mas o de toda humanidade.
Encaro a abordagem a uma mulher como algo muito sério, difícil e delicado, como as relações entre os EUA e a Coreia do Norte. Parece que qualquer erro no flerte/negociação vai desencadear não apenas o meu fim, mas o de toda humanidade.
É assim que eu me sinto. Suo, gaguejo, fico ansioso, não sei o
que fazer ou dizer, gesticulo de forma estranha e, não raro, faço cara de
maníaco. Tal comportamento resulta em três reações das mulheres: estranhamento,
impaciência ou, na pior das hipóteses, medo.
Caso
eu consiga superar a barreira da abordagem ou realizar um convite para sair e
conseguir estabelecer diálogo sem tanta gagueira ou silêncios constrangedores, há
um outro problema: tomar a iniciativa. Sim, continuo sem saber quando devo
beijar e fazer venha-cá-minha-nega para uma mulher.
A
dificuldade vai além da minha inaptidão para decifrar os anseios do sexo
feminino e inclui doses cavalares de timidez, insegurança e baixa autoestima,
me inundando por pensamentos como:
“ah,
ela provavelmente me achou divertido e quer ser minha amiga”.
“ela
deve estar falando comigo só porque suas amigas estão fazendo qualquer outra
coisa e eu sou o único conhecido dela nesse ambiente”.
“ela
claramente deve achar que sou gay”.
“não,
ela é bonita e divertida demais, certamente não se interessa por mim”.
“deus,
eu estou vestindo uma camisa do Rocky Balboa, óbvio que ela me acha retardado”.
É
difícil.
segunda-feira, outubro 08, 2012
Every time I try to get out, they pull me back in
À medida que vamos envelhecendo deixamos de acreditar em mais e mais coisas. Os primeiros a cair no limbo da descrença são o bicho-papão, Papai Noel, duendes, coelhinho da Páscoa etc. Posso já ter deixado de acreditar nessas e em tantas outras coisas, como Deus e homenzinhos verdes que abduzem pessoas, mas algo que não muda é a crença no amor.
Posso até passar for fazes de negação, mas sempre volto ao amor. No geral, os resultados amorosos não são animadores e, acredito, preferia ficar sem essas paixões e tento me manter longe delas, sem sucesso. É como quando o Michael Corleone desabafa sobre seu insucesso em se manter longe das coisas da máfia: "Every time I try to get out, they pull me back in".
É exatamente isso, tento me manter quietinho e longe dessas mulheres complicadas que despertam paixões. Mas elas sempre me arrastam de volta para esse maldito território, mais perigoso do que a cosa nostra. E tão rápido quanto elas me arrastam, elas mudam de ideia.
Posso até passar for fazes de negação, mas sempre volto ao amor. No geral, os resultados amorosos não são animadores e, acredito, preferia ficar sem essas paixões e tento me manter longe delas, sem sucesso. É como quando o Michael Corleone desabafa sobre seu insucesso em se manter longe das coisas da máfia: "Every time I try to get out, they pull me back in".
É exatamente isso, tento me manter quietinho e longe dessas mulheres complicadas que despertam paixões. Mas elas sempre me arrastam de volta para esse maldito território, mais perigoso do que a cosa nostra. E tão rápido quanto elas me arrastam, elas mudam de ideia.
terça-feira, maio 01, 2012
Zumbis curtem dançar na posição da rã
Algumas vezes evoco Dylan e tento acredita no verso “when
you got nothing, you got nothing to lose”. Em ocasiões como essas, acabo por
fazer coisas como aceitar o convite de dois amigos para ir a uma boate numa
noite de sexta-feira. E vamos lá com a certeza de que não temos nada a perder.
Grande equívoco.
O drama começa já na fila da boate, quando vejo todos aqueles caras com camisas polo estampadas com brasões e/ou números enormes e mulheres que acham bacanas os caras com camisas polo estampadas com brasões e/ou números enormes. Com todo meu preconceito e apatia, tenho convicção de que não quero estar lá dentro nem muito menos interagir com aquelas pessoas que dentro de instantes estarão cantando e dançando a alegremente a música da posição da rã.
O cenário
lá dentro é desolador. Se tenta emular um cenário rústico que remeta à temática
mexicana da casa, mas todos aqueles arbustos e ramos de flores, somados à parca
iluminação gelo seco me fazem lembrar a decoração de cemitério que um parque de
diversões daqui adota próximo ao Dia das Bruxas. Até uns esqueletos próximos ao
teto a boate tem. Impossível evitar essa associação.
A atmosfera
de quermesse em Dia das Bruxas é reforçada pelo público, que em sua maioria age
como zumbis menos interessantes do que os habituais. Eles não buscam miolos
como os mortos-vivos bacanas; eles querem azarar, ouvir músicas patéticas e
pagar R$ 7 numa long neck de Skol. Difícil aceitar que todos eles estão em
plena posse de suas faculdades mentais.
Aí bate um
complexo de messias, e fico entre perdoai-pai-eles-não-sabem-o-que-fazem e SAI-CAPETA.
Queria salvar aquelas pessoas, embora em meio àquele clima de alegria geral até
fique em dúvida se não sou eu quem precisa de salvação. Espero que não.
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